30 de dezembro de 2002

R.I.P.
Rest In Peace....


e paz é o que hoje procuro por entre os escombros da minha escrita. o poema morreu em mim. era morte certa, eu sabia, tu sabias... aliás... tu sabía-lo.... muito antes de eu tomar conhecimento.... o poema morreu em mim. nem o teu nome mais consigo olhar por entre as nesgas de parede branca da minha casa. quem suspeita que tudo isto é real? quem sabe deveras que tudo isto vive? o poema morreu dentro de mim.... quando me interpelaste, pela primeira vez, deverias ter perguntado
"vamos subir um degrau na intimidade? deixas que plante um poema dentro de ti?"
e eu responderia sem palavras e deixaria que concebesses um poema do lado de dentro de mim. inverteríamos assim os papéis. e eu, sem palavras dir-te-ia sonhar o poema, quando, na realidade só o conceberia no momento frágil que vai do fechar os olhos ao adormecer.... e aí... o teu sorriso seria mais meu e o meu olhar no teu nome pelas nesgas brancas da parede seria agora tolerável, desejável mesmo... disseste-me que me visitarás quando fôr para longe, para verdadeiramente longe. e eu sei que não me virás ver enquanto estiver suficientemente perto para olhar a nesga branca da parede de minha casa. o poema morreu em mim e não em ti. não são tanto as coisas pequeninas que tenho medo de esquecer... essas... são as que se guardam no momento da perda. são as médias... aquelas coisas médias... sem importância. não o cheiro ou o sabor, o olhar, a maneira como passavas as tuas mãos pelos meus cabelos, a maneira que tinhas de procurar a minha mão, o carinho quando me acordavas... não essas coisas que revivo mas as coisas médias. as pequenas atenções... os pequenos presentes que caracterizavam o poema..............


ainda não decidi que sabor tem o poema que morreu...
posso fazer uma pergunta?
não vais fugir, gritar, acusar-me de te querer violar?
vamos subir um degrau na escada da intimidade?
trocamos de sabor?

25 de novembro de 2002

Manuel António Pina

AMOR COMO EM CASA

Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas que me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no amor como em casa.


há quanto tempo não vou a casa... estrangeira nesta cidade de múltiplos abrigos, todos umbrais de portas, portões fechados, medo de roubos, seguranças com chaves seguras de cadeados grossos de medos. ..... um dia terei atenção aos caminhos que trilho por entre os prédios e encontrarei, por fim, a tua casa............

21 de novembro de 2002

A. Ramos Rosa


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol.

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida.

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde.




estou viva.... frenética esta noite que me pede chuva e vento e raios e suor e lágrimas e areia muita, molhada por debaixo dos pés, e o cabelo húmido da chuva que cai, incessante..... estou viva.... silenciosamente, dolorosamente viva. sobrevivente aos dias teus... a terrível constatação da ausência de mim em mim. a oferta de um corpo, o sacrificio a um dEUS tão menor quanto o seu olhar.... tão ausente quanto as suas mãos. o altar onde te escrevo partiu com o frio que se instalou no santuário do meu corpo. as entranhas que se definem agudamente entre os meus dedos, no esventramento que ocorreu quando o sol pelos vitrais se rasgou........ estou viva... frenéticamente, solitariamente viva. fazia-me tão bem hoje alcóol pelo sangue. escorridio..... cinicamente trilhando caminhos de fogo dentro de mim... as labaredas queimaram então as paredes (de)escritas. o fumo enegreceu os poemas pelo corredor..... estou viva, na maravilha de um espaço deserticamente horizontal, estou viva. nada a assinalar a sul.

30 de outubro de 2002

Paulo Leminski

1.

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

2.

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à
vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a
única coisa que me acalma




morri. no dia em que fechaste o teu corpo por sobre o meu. morri. a cidade que se encobria pela tarde dentro. deixámos o pássaro fugir pela janela. mas ficou no parapeito, fez companhia aos corvos quando estes apareceram. as aves alimentaram-se da nossa carne putrefacta. as órbitas esvaziaram-se com o tempo e os papéis amareleciam pelos cantos. a tinta descascou das paredes. faz-nos tão bem morrermos...

25 de outubro de 2002

vou ser algo previsível... al berto

Carta da Flor do Sol (excerto)
de Al Berto


"lembro-me que tínhamos fome havia três dias
encostado ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro
a escuridão não era só exterior
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia a mão nas algibeiras
onde tacteava tudo o que guardara e possuía
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas
sentia-me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulavas para me dizer que estávamos vivos
e apaixonados"


lembro-me... as amuradas eram os corpos que refreavam a cama. nada possuía a não ser o teu sorriso, o teu olhar e as tuas mãos. nada possuo agora. nem o teu olhar, nem as tuas mãos, nem o teu sorriso. agora sim, estou verdadeiramente pobre. agora sim, estou verdadeiramente feliz. gesto nenhum entre nós. estamos mortos. e nada sei de ti.

22 de agosto de 2002

(por lapso...) aqui fica o contexto (para os mais interessados)...

Do Desejo
de Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.


era o que gostaria de ouvir Aquele Outro dizer, na sua voz cálida..."Como te amar, sem nunca merecer?"
Hilda Hilst escreveu em 1992 "E por que haverias de querer minha alma/ Na tua cama?"... Se ela fosse minha, se um dia mo perguntassem, que diria eu? "E por que haverias de querer minha alma/ Na tua cama?"... a diferença entre um corpo numa cama e uma alma, desembrulhando.se por sobre a cama... a diferença entre o colorido de uma pele e o quente roçar de uma alma pelo áspero toque de um rosto. Hilda Hilst sabia o que queria perguntar... "E por que haverias de querer minha alma/ Na tua cama?". Além da questão mais habitual, aquela à qual eu já não quero saber a resposta, (porquê?) é esta a questão que, um dia, gostaria de colocar... "E por que haverias de querer minha alma/ Na tua cama?". Embora agora já nada signifique... Embora agora isso significasse um incesto fulguroso... Mas não acho que, algum dia alguém tenha querido a minha alma numa cama...