22 de agosto de 2002

(por lapso...) aqui fica o contexto (para os mais interessados)...

Do Desejo
de Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.


era o que gostaria de ouvir Aquele Outro dizer, na sua voz cálida..."Como te amar, sem nunca merecer?"
Hilda Hilst escreveu em 1992 "E por que haverias de querer minha alma/ Na tua cama?"... Se ela fosse minha, se um dia mo perguntassem, que diria eu? "E por que haverias de querer minha alma/ Na tua cama?"... a diferença entre um corpo numa cama e uma alma, desembrulhando.se por sobre a cama... a diferença entre o colorido de uma pele e o quente roçar de uma alma pelo áspero toque de um rosto. Hilda Hilst sabia o que queria perguntar... "E por que haverias de querer minha alma/ Na tua cama?". Além da questão mais habitual, aquela à qual eu já não quero saber a resposta, (porquê?) é esta a questão que, um dia, gostaria de colocar... "E por que haverias de querer minha alma/ Na tua cama?". Embora agora já nada signifique... Embora agora isso significasse um incesto fulguroso... Mas não acho que, algum dia alguém tenha querido a minha alma numa cama...