30 de outubro de 2002

Paulo Leminski

1.

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

2.

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à
vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a
única coisa que me acalma




morri. no dia em que fechaste o teu corpo por sobre o meu. morri. a cidade que se encobria pela tarde dentro. deixámos o pássaro fugir pela janela. mas ficou no parapeito, fez companhia aos corvos quando estes apareceram. as aves alimentaram-se da nossa carne putrefacta. as órbitas esvaziaram-se com o tempo e os papéis amareleciam pelos cantos. a tinta descascou das paredes. faz-nos tão bem morrermos...

25 de outubro de 2002

vou ser algo previsível... al berto

Carta da Flor do Sol (excerto)
de Al Berto


"lembro-me que tínhamos fome havia três dias
encostado ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro
a escuridão não era só exterior
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia a mão nas algibeiras
onde tacteava tudo o que guardara e possuía
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas
sentia-me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulavas para me dizer que estávamos vivos
e apaixonados"


lembro-me... as amuradas eram os corpos que refreavam a cama. nada possuía a não ser o teu sorriso, o teu olhar e as tuas mãos. nada possuo agora. nem o teu olhar, nem as tuas mãos, nem o teu sorriso. agora sim, estou verdadeiramente pobre. agora sim, estou verdadeiramente feliz. gesto nenhum entre nós. estamos mortos. e nada sei de ti.