30 de outubro de 2002

Paulo Leminski

1.

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

2.

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à
vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a
única coisa que me acalma




morri. no dia em que fechaste o teu corpo por sobre o meu. morri. a cidade que se encobria pela tarde dentro. deixámos o pássaro fugir pela janela. mas ficou no parapeito, fez companhia aos corvos quando estes apareceram. as aves alimentaram-se da nossa carne putrefacta. as órbitas esvaziaram-se com o tempo e os papéis amareleciam pelos cantos. a tinta descascou das paredes. faz-nos tão bem morrermos...