25 de outubro de 2002

vou ser algo previsível... al berto

Carta da Flor do Sol (excerto)
de Al Berto


"lembro-me que tínhamos fome havia três dias
encostado ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro
a escuridão não era só exterior
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia a mão nas algibeiras
onde tacteava tudo o que guardara e possuía
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas
sentia-me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulavas para me dizer que estávamos vivos
e apaixonados"


lembro-me... as amuradas eram os corpos que refreavam a cama. nada possuía a não ser o teu sorriso, o teu olhar e as tuas mãos. nada possuo agora. nem o teu olhar, nem as tuas mãos, nem o teu sorriso. agora sim, estou verdadeiramente pobre. agora sim, estou verdadeiramente feliz. gesto nenhum entre nós. estamos mortos. e nada sei de ti.