25 de novembro de 2002

Manuel António Pina

AMOR COMO EM CASA

Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas que me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no amor como em casa.


há quanto tempo não vou a casa... estrangeira nesta cidade de múltiplos abrigos, todos umbrais de portas, portões fechados, medo de roubos, seguranças com chaves seguras de cadeados grossos de medos. ..... um dia terei atenção aos caminhos que trilho por entre os prédios e encontrarei, por fim, a tua casa............

21 de novembro de 2002

A. Ramos Rosa


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol.

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida.

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde.




estou viva.... frenética esta noite que me pede chuva e vento e raios e suor e lágrimas e areia muita, molhada por debaixo dos pés, e o cabelo húmido da chuva que cai, incessante..... estou viva.... silenciosamente, dolorosamente viva. sobrevivente aos dias teus... a terrível constatação da ausência de mim em mim. a oferta de um corpo, o sacrificio a um dEUS tão menor quanto o seu olhar.... tão ausente quanto as suas mãos. o altar onde te escrevo partiu com o frio que se instalou no santuário do meu corpo. as entranhas que se definem agudamente entre os meus dedos, no esventramento que ocorreu quando o sol pelos vitrais se rasgou........ estou viva... frenéticamente, solitariamente viva. fazia-me tão bem hoje alcóol pelo sangue. escorridio..... cinicamente trilhando caminhos de fogo dentro de mim... as labaredas queimaram então as paredes (de)escritas. o fumo enegreceu os poemas pelo corredor..... estou viva, na maravilha de um espaço deserticamente horizontal, estou viva. nada a assinalar a sul.