21 de novembro de 2002

A. Ramos Rosa


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol.

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida.

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde.




estou viva.... frenética esta noite que me pede chuva e vento e raios e suor e lágrimas e areia muita, molhada por debaixo dos pés, e o cabelo húmido da chuva que cai, incessante..... estou viva.... silenciosamente, dolorosamente viva. sobrevivente aos dias teus... a terrível constatação da ausência de mim em mim. a oferta de um corpo, o sacrificio a um dEUS tão menor quanto o seu olhar.... tão ausente quanto as suas mãos. o altar onde te escrevo partiu com o frio que se instalou no santuário do meu corpo. as entranhas que se definem agudamente entre os meus dedos, no esventramento que ocorreu quando o sol pelos vitrais se rasgou........ estou viva... frenéticamente, solitariamente viva. fazia-me tão bem hoje alcóol pelo sangue. escorridio..... cinicamente trilhando caminhos de fogo dentro de mim... as labaredas queimaram então as paredes (de)escritas. o fumo enegreceu os poemas pelo corredor..... estou viva, na maravilha de um espaço deserticamente horizontal, estou viva. nada a assinalar a sul.