31 de janeiro de 2003

é-me igual se não me ouves...
é-me igual se dormes a estas tardias horas.

contento-me com tão pouco...
estar aqui, a teu lado, a tua mão por sobre os lençóis, tão perto do toque, à distância de uma carícia...
contento-me com tão pouco...
umas quantas letras escritas por sobre a derme,
a tinta que se entranha lentamente nos meus poros, o teu olhar pelas paredes do meu quarto...
uma fotografia desfocada...
contento-me com tão pouco...


é-me igual todo o tempo que passa, uniforme no exterior de mim... é-me igual, não me fere na pele.

queria saber que poemas mais gostas para to dedicar...
quem sabe... aqui, porque não? aqui sim, um poema, o teu poema favorito... escrever-me-ás a dizer-me qual é?...

29 de janeiro de 2003

Maria do Rosário Pedreira
de O Canto do Vento nos Ciprestes

Pudesse eu morrer como tu me morreste nessa noite -
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido - e não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo -
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi -
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema.


pudesse eu morrer-me na tua boca... as minhas mãos estão gastas e velhas, grandes demais para o meu corpo, pequenas demais para albergar o teu nome... e se me mostrasses agora o teu corpo, com que mãos afagá-lo-ia eu? com que sorrisos te mostraria o chão dos meus dias? e como te explicar que és tu o poema que (ainda) me sustenta... como te dizer tanto daquilo que ficou por dizer? como te murmurar as conversas que tivémos apenas dentro de mim? como tudo isto fazer... se me morreste nessa noite... por entre a fímbria do lençol e o meu corpo...

20 de janeiro de 2003

Carlos Drummond de Andrade


A Um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.



não tenho mais a escrever... é inútil....

15 de janeiro de 2003

Portishead, in Dummy
by Beth Gibbons


biscuit

I'm lost and found,
Stranger things have come your way,
Its just I'm scared,
Got hurt a long time ago,
Can't make myself hurt,
No matter how hard I scream

Oh sensation,
Its in slave of sensation,

Fully fed yet I still hunger,
Torn inside,
Haunted I tell myself yet I still wander,
Down inside,
Its tearing me apart

Oh sensation,
Its in slave of sensation,
I'll never fall in love again,
It's all over now

At last relief,
A mother's son has left me sheer,
The shores I seek,
Are crimson valley distant,
Can't make myself hurt,
No matter how hard I scream

Oh sensation,
Sin slave of sensation,
I'll never fall in love again,
It's over now



que mais dizer por entre as brancas linhas do blog? que mais acrescentar? não preciso de nada daquilo que me dás: a indiferença e as propositadas feridas abertas na carne ardem-me na pontas dos dedos frios....

perguntam-me por ti sem se referirem ao teu nome. por meu sincero e expresso pedido, é certo, mas, ainda assim, sem se referirem ao teu nome.... perguntam-me por ti. e a mera referência não me faz nem tremer... confundirei alguma vez, teu nome, numa lista telefónica? ou encontrar-te-ei, um dia, longe de tua casa, por acaso, nalguma rua suficientemente larga para poderes mudar de passeio sem que te veja?

no teu nome lia-se desejo naquela tarde e, por mais que o soletrasse, a conjunção de todas as letras continuava a ser "desejo"...

dentro de mim há algo que se parte, indiferentemente àquilo que deixei para trás... que foi tanto... e nada mais te tenho a dizer. nada mais a escrever... e ainda nada mais a actualizar...