29 de janeiro de 2003

Maria do Rosário Pedreira
de O Canto do Vento nos Ciprestes

Pudesse eu morrer como tu me morreste nessa noite -
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido - e não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo -
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi -
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema.


pudesse eu morrer-me na tua boca... as minhas mãos estão gastas e velhas, grandes demais para o meu corpo, pequenas demais para albergar o teu nome... e se me mostrasses agora o teu corpo, com que mãos afagá-lo-ia eu? com que sorrisos te mostraria o chão dos meus dias? e como te explicar que és tu o poema que (ainda) me sustenta... como te dizer tanto daquilo que ficou por dizer? como te murmurar as conversas que tivémos apenas dentro de mim? como tudo isto fazer... se me morreste nessa noite... por entre a fímbria do lençol e o meu corpo...