31 de maio de 2003

Al Berto
O Esconderijo do Homem Triste


N�o sei o que me aconteceu para ficar t�o triste.
Lembro-me de ter percorrido meio mundo � procura de imagens. Tinham-
me dito: � no movimento incessante de quem viaja que encontrar�s a
imobilidade que desejas.

Mas eu n�o sabia para onde ir. Deambulei anos a fio, e nunca
encontrei as imagens que queria. Gastei as parcas for�as que tinha
neste trabalho, at� que um dia me perdi junto ao mar.

Resolvi construir, ali mesmo, uma casa.

Tencionava n�o sair mais daquele lugar onde me perdera. Imobilizar-
me, viver e envelhecer dentro de quatro paredes nuas erguidas pelas
minhas m�os. Morrer frente ao mar, sozinho, como num romance que lera
havia anos. Esperar que a casa se esboroasse e me servisse, por fim,
de t�mulo.

Assim n�o aconteceu. Algum tempo depois, a casa transformou-se
subitamente em pris�o. E talvez tenha sido isso que me p�s, assim,
triste para sempre. Custava-me a crer que aquilo que eu pr�prio
constru�ra acabasse de me atrai�oar.

Assustei-me e fugi nessa mesma noite. Ignoro o que se passou com a
casa. N�o sei se ainda existe... o que sei � que a meio daquela fuga
deseperada ocorreu-me o que me levaria, enfim, a encontrar o
esconderijo para a minha imobilidade.

� desse lugar iluminado que, hoje, vos falo.


Fui ter com um fot�grafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele
acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A m�quina disparou
sem cessar.

Gesticulei, abri os bra�os, mexi-me muito - como se soubesse que
nunca mais o voltaria a fazer.

Quando o meu amigo mergulhou o papel fotogr�fico no revelador, eu
tamb�m mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez
minutos, porque ao retomar consci�ncia se+nti as pernas e os bra�os
dormentes - e todo o meu corpo estava mole.

Um v�u de luz toldou-me a vis�o. Ceguei por instantes, mas n�o foi
uma sensa��o desagrad�vel. Depois, o corpo come�ou a ondear, a
impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo
fizera de mim.

Segundos mais tarde uma pin�a met�lica tirava-me do revelador. Senti,
ent�o, a frescura da �gua - e toda a superf�cie da folha de papel, o
meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me enteorpecer na
temperatura t�pida, voluptuosa, do fixador.

Tinha encontrado o esconderijo.


E aqui estou, diante de quem me visita e olha. Apesar de n�o ter
deixado de ser um homem triste, adquiri a vantagem de estar sentado,
e de j� n�o precisar de fugir ou desejar seja o que for.

Mas o pior momento do dia � aquele em que nos separamos. N�o consigo
dormir. Fico noite fora com a minha solid�o - e quem esteve a ver-me
parte com o susto de continuar a existir.

Nenhum de n�s � capaz de murmurar: fica comigo e toca-me. E a noite
cai, de certeza, mais escura para quem parte.

Eu sou apenas a imagem do que fui. N�o sinto nada.

Certa vez, um homem e uma mulher pararam diante de mim. Olharam-me
muito tempo.

Aproximaram-se, afastaram-se, voltaram a aproximar-se do vidro que me
protege. O nariz da mulher quase me tocou nos joelhos.

De repente, a mulher inclinou a cabe�a, sobressaltou-se e disse:

- Z�, perdi o vidro do rel�gio.

O homem baixou-se e procurou-o. Quando o encontrou, deu-lho. Mas ela
argumentou:

- A culpa foi tua. Eu n�o queria vir aqui.

O homem, muito s�rio, respondeu-lhe.

- Francamente, F�tima, n�o te toquei no pulso. N�o mexi no tempo.
Nunca mexo no tempo...

Outras vezes, quando n�o est� ningu�m olhar para mim, ponho-me a
cismar:

A luz � o meu t�mulo.

Em tempos, os meus gestos tiveram o rigor da abelha que rouba o p�len
� flor. Com esses gestos quis construir um espa�o para o sil�ncio.
Uma morada onde fosse poss�vel ignorar o mundo, ou esquec�- lo.

De vez em quando, aceito ainda o mist�rio das palavras que me cercam
e n�o coincidem, em nada, com a realidade.
Eu s� quis celebrar a
vida. Encontrar o esconderijo onde fosse poss�vel um derradeiro acto
de paix�o. O esconderijo onde pudesse, de novo, tocar teu rosto e
recusar a aridez da cal�nia.

Mas a luz � o meu t�mulo.

A pouco e pouco incendiaram-se os negros profundos, o c�rculo
luminoso aprisionou-me, e as m�os gesticularam sem sentido. O
interior das paisagens guardou a tua aus�ncia. E numa �ltima vis�o a
madrugada irrompeu do mar adormecido.

As m�os abriram-se novamente, quando o dia come�ou a devorar a nudez
do corpo.

Compovido, perdi a voz.

N�o podia chamar-te, lembro-me, por isso desatei a escrever o teu
nome nas paredes da cidade. Tempo perdido. J� n�o podias ouvir-me nem
ler-me.
Foi quando desejei, com ardor, este esconderijo.

Aqui, pelo menos, respiro ar condicionado, e um foco de luz simula a
eternidade dos dias.

H�o h� emo��es, nem palavras ditas em voz alta. N�o acontece nada,
nem se ouve respira��o alguma.


Quem me visita diz coisas fant�sticas a meu respeito. Nunca confirmo
nem desminto. Limito-me a ouvir e calo-me. Porque h� coisas que devem
correr com o tempo e, mais tarde ou mais cedo, nele se apagam.

� claro que tamb�m h� coisas guardadas na mionha mem�ria de papel.
Mas essas, j� n�o tenho a certeza de que algu�m as tenha dito ou eu
as tenha, de facto, ouvido.

Por vezes ponho-me a sorrir, mas ningu�m consegue ver que sorrio,
porque o retrato que me esconde - como eu - est� morto e desfocado.

E a luz � o nosso t�mulo.

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