17 de abril de 2005

segurar-te pelos pulsos. como que a prender-te como que a prender a tua atenção.
prender-te pelos pulsos.

para que não (me) possas nunca cair.

"You don't need to be taught to cry. The soul presses a button"*

estou amarga.
como o leite que azeda na porta do frigorífico quando eu vou de férias e o teimo em não o deitar fora, mesmo sabendo que não voltarei tão cedo. como se dissesse - talvez volte entretanto - como se dissesse - não é definitivo que vá.

estou seca.
como o ramo de flores que, há anos, está na jarra da mesa do sótão, sem água, e que ficaram iguais ao dia em que as apanhei, mas secas. quebradiças ao toque. como se desfizessem nas palmas das mãos.

se tivesse cordas seria uma má guitarra. apesar de oca, n se ouve nada cá dentro.
o som não se propaga no vácuo, não é?

não preciso que tomem a minha vida. afinal de contas, já estou habituada a estar sozinha. afinal de contas, é o que eu sei fazer melhor. é estar sozinha. e ser amiga. nisso sou muito boa. mas mesmo muito boa. podia até ser doutorada, pós-doutorada, catedrática no que toca ao assunto, "ser amiga" podia dar aulas até gratuitas com o saber ser amiga. é o que eu sei ser melhor. e as requisições são tantas que não sei como dou vazão a tanto "trabalho" que, no fundo, não é trabalho nenhum. que, no fundo, no fundo, é tão natural... é talvez o meu lado mais espontâneo. alguns diriam mesmo, o único lado espontâneo.

só não sei ser amante.
e pra isso preciso de uma ajuda. não sei ser amante.
e já não sei mais escrever...

só a perder qualidades...
e hoje que tou tão amarga...
o açucar nem se dissolve na minha boca. fica por ali, entre a língua e o céu da boca, seco. sinto os grãozinhos que procuram a saliva para se dissolverem. e nada acontece.

afinal de coisas, já devia estar habituada.
nunca nada acontece. algo sempre quase acontece. mas nunca nada acontece...


"- Há muito tempo que não choramos.
Mergulhamos o rosto no escuro das mãos, as lágrimas
irrompem, suavemente, sem convulsões nem gemidos. São
as piores lágrimas, aquelas que se assemelham a ilhas
perdidas no meio da nossa própria noite."
Al Berto in "O Anjo Mudo"

5 de abril de 2005