31 de julho de 2005

procuro-te

Mário Cesariny

de profundis amamus

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim
durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te
importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o
presente

perfeito
corsários de olhos de gato
intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso



procuro-te durante o dia, noite dentro. espero pela tua gargalhada, as tuas caretas e brincadeiras. o teu 'lá, si, dó, a nota que for.

escrevo-te recados mentais, pequenas notas que deves esquecer. curiosidades desinteressantes do meu dia.
procuro verbos novos para esboçar contornos mais precisos para melhor definir o tempo real que vivemos. procuro não me afastar do tema central, dispersar a minha atenção, como, pelos vistos, tenho tendência a fazer nos exames (sim, que uma nota maior, ainda que negativa, é sempre um incentivo, não?)...

anseio o passar do tempo.


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