3 de julho de 2006

abraço

o braço por cima dos ombros.
entre-dedos memórias que nos vêm distantes. de quando eu passava os dedos pelo teu cabelo e tu inclinavas a cabeça para trás, de olhos fechados.
a exposição indefesa do teu pescoço...

a barreira ultrapassada da intimidade que nos deixa aninhar num carinho já antigo. com covinhas onde um corpo costumava descansar...

encosta-te a mim.
eu sei de todos os teus males a história. e sei das noites em que tudo é vertiginoso.

e por enquanto é só isto que posso fazer. é só isto que te posso dizer... encosta-te a mim. fecha os olhos. eu ficarei de guarda na escuridão da noite. a lua cheia ainda vai tardar...


Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

1 comentário:

20hinrrabarre disse...

Excelente site. Parabéns.