15 de novembro de 2006

entre nós

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Entre nós e as palavras há metal
fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos
morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre
nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças
sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras
de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que
deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens,
palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de
Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem
ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras
impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem
todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes
escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras
maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny



tenho-me emparedado de palavras por dizer e de palavras por escrever e de palavras por sentir.
e vi-te. reconheci-te. e tudo brota de mim como se aprendesse agora que tudo se pode dizer e escrever e sentir.

2 comentários:

mines disse...

O meu poema favorito. Boa escolha!Beijos

indigo des urtigues disse...

Adoro Cesariny!

Sinto-me emparedada...nada digo, nada escrevo...

Tu, deixa-te levar, deixa brotar aquilo que com tanta gana quer sair aì de dentro!