11 de dezembro de 2012

não sei bem como passar por aqui. por muito que repita o mantra (é normal estar triste. as mortes demonstram a fragilidade humana. todos vamos morrer. é normal estar triste. as mortes demonstram a fragilidade humana. todos vamos morrer. é normal estar triste. as mortes demonstram a fragilidade humana. todos vamos morrer. é normal estar triste. as mortes demonstram a fragilidade humana. todos vamos morrer...)

nada faz passar esta tristeza imensa que se instalou em mim.


só o tempo poderá curar esta morte tão súbita, tão inesperada.

(Igor, a conversa não azeda realmente... espero que um dia a possamos retomar. onde quer que seja...)


19 de outubro de 2012

de como a escrita nos pode encher o coração de felicidade e marejar os olhos. de como todo o cansaço do mundo, todas as frustrações, se tornam mais leves.

de como um bando de andorinhas, metidas num saco e transformadas em título, se tornaram no meu mais querido e belo feito.

obrigada, obrigada, obrigada.

11 de outubro de 2012

é um aperto no peito.

quase nada, sussurro-te ao ouvido. 

na realidade é o roçar das penas contra a parede da garganta. é o esticar da asa, lentamente, após uma longa noite de sono. o bico que se encosta contra as cordas vocais.

ansiedade pura que cresce em mim. o corpo dói com este outro que cresce dentro e agora se estica lentamente até aos limites da minha humanidade.

12 de setembro de 2012

pegar no telefone e escolher o teu número. ligar-te e contar-te.

que me deste aquilo de que eu mais precisava agora.

14 de agosto de 2012

na tua mão, a foto. olhamos para ela e não nos reconhecemos. a memória que tínhamos desse momento esvaiu-se nas tuas e nas minhas mãos. 


mas parecemos contentes.

1 de junho de 2012

empurra-me contra a parede branca. tapa-me a boca com força enquanto te puxo para mim. não deixes que te murmure obscenidades susceptíveis de serem ouvidas do outro lado da porta fechada. a camisa rasga por onde te agarro. mordes-me em resposta. guias a minha mão numa imposição, viras-me do avesso e libertas-me das regras.

penso por momentos quem estará, ignorante, do lado de lá desta parede. empurro-te de seguida, num jogo cujas regras nunca discutimos e que aprendemos a jogar numa outra vida.


guardo ainda na boca o sabor do teu corpo
é por estremeceres que sei

que a minha e a tua pele não estão tão distantes quanto parecem.

28 de maio de 2012

um arrepio que me percorre. iluminar-te por dentro com a surpresa que é a minha pele. os dedos que me percorrem. o contraste entre as duas peles. e o mistério que é o teu sentir. como fechas os olhos e jogas a cabeça para trás quando te toco aqui. e aqui. as mãos que agarram os lençóis. cerras os dentes. mordo-te aqui para que ainda saibas amanhã por onde estive. 

traço no teu corpo um mapa exacto, marco o norte para que saiba sempre o sentido certo da migração dos pássaros.




descobrir de novo aquele sítio secreto que é o fim do teu pescoço, o início dos teus ombros...

10 de maio de 2012

3 de maio de 2012

sensorial overload




tudo está bem


Eduardo Carranza 
in Um país que sonha (cem anos de poesia colombiana)

the first time

a primeira vez que te escrevi não sabia que te ia escrever sempre. que, a partir do momento em que pus no papel o teu nome, te inscrevi em todas as páginas que li e todas aquelas que viria a ler. que, cada vez que pegaria numa caneta, as letras do teu nome se desenhariam no ar, antes da tinta tocar o papel.

também não sabia que, se te tocasse, o que há de humano em mim morreria e que te tornarias num animal que me habita. que não me deixarias mais dormir nem sossegar. que os meus dias deixariam de ter noites e que a luz constante passaria a torturar-me o sono.

que as palavras voltariam a transbordar como se nunca me tivessem deixado.

16 de abril de 2012

ter duas vidas. ser o fantasma de mim própria e habitar duas cidades tão diferentes.
conto os segundos que passam pela arritmia cardíaca que se instalou no meu peito. há papéis que represento a custo e os diálogos parecem-me dessincronizados. a tua boca mexe mas dela não sai qualquer som.

as tuas palavras chegam-me quando já estou sentada no metro e sigo pela cidade subterrânea. e não adiantam nada porque já estás longe de onde estou. porque vais sempre dois passos à minha frente...

i broke it and i can't fix it.

11 de abril de 2012

9 de abril de 2012

You can get addicted to a certain kind of sadness




But you didn't have to cut me off
Make out like it never happened
And that we were nothing
And I don't even need your love
But you treat me like a stranger
And that feels so rough

4 de abril de 2012

render-me lentamente a este demónio que vive dentro de mim e me puxa as terminações nervosas com uma só mão. a cabeça inclina-se para trás e uma vertigem percorre o corpo. sussurro-te baixinho o que sei que queres ouvir. a palavra-passe para que deixemos aquilo que nos torna racionais no chão, como trapos velhos. aqui, agora, não há nada que não seja animal.

uma mão que rapidamente me puxa o cabelo, outra que me empurra contra a parede. novamente, a palavra-passe. desta vez olhando-te nos olhos. para que saibas que falo a sério. agarro na tua mão e conduzo-a por mim. sabes demasiado bem a minha cartografia pessoal, sem que nunca me tenhas visitado.

sem hesitações, as palavras certas. o desvendar de um segredo
e uma frase que não encontra o fim

29 de março de 2012

escrever III

Sento-me à mesa. É um banco velho este. Obriga a que as costas se curvem com o peso dos minutos. Pões-me um papel à frente. Folha branca, imaculada.

Mas o que não sabes é que a escrita só me acontece quando tenho linhas por onde me coser.

22 de março de 2012

ainda lembro todos os primeiros pormenores. o que tínhamos vestido. a maneira como a cor da minha pele era bastante mais escura. a maneira como estremeceste quando entrei no carro. quase sentindo o teu coração contra o meu peito, apesar de não me teres tocado ainda. apesar de ainda não nos termos abraçado. e o teu olhar. recordo o teu olhar, fugindo do meu, procurando o meu.

ainda sinto todos os primeiros pormenores. a entrada de um prédio, o mármore cinzento, frio nas minhas costas. a tua mão quente, descendo pelas minhas pernas. o que tinha vestido, o que tinhas vestido e o que eu pensava que o futuro me reservava.