12 de junho de 2013

Uma Saca Cheia de Andorinhas

A pedido de várias famílias, o meu conto - seleccionado para o Jovens Criadores 2012.

"Uma saca cheia de andorinhas

Não pensei que voltaria. Quando saí daqui, foi para nunca mais  voltar. Na altura, o chão era de terra batida. Hoje há paralelos que  saltam quando os carros passam. A rua agora tem uma placa e cada porta uma ranhura para o correio. Quando era pequena e ainda aqui vivia, descíamos pela aldeia até ao posto público, para ir buscar o correio. A dona Josefa esperava-nos com a correspondência. Já sabia que vínhamos a correr, ribeira abaixo, só por ouvir as nossas vozes. “Tomem lá andorinhas”, dizia ela, sem sair de trás do balcão, “não me trazem a Primavera mas levam as  cartas aos ninhos”. As varizes há muito que a tinham aprisionado àqueles dez metros quadrados, ao balcão e às cartas. Todos os dias a dona Josefa separava a correspondência. Um mapa que se estendia pela mesa da sala de trás. A dona Josefa não separava as cartas pela morada mas pelos graus de parentesco entre as  famílias. A correspondência da Ti Xica do Monte juntava-se à da Felismina dos Betos. Não que vivessem perto mas a Felismina era afilhada da Ti Xica e podia levar-lhe as cartas quando passasse por casa dela. A dona Josefa pousava cada carta como se conseguisse ler nelas o futuro de cada família, espalhando em cima da mesa todo o seu presente e o seu passado, desenhando assim a geografia afectiva da aldeia. Nós, os Mochos, tínhamos sempre um montinho de cartas à nossa espera. Uma do tio Rodrigo, lá longe na Rodésia. Outra do tio Joaquim, em Paris da França, e outra ainda do pai, perdido lá em Luanda. Para nós, os nomes daqueles sítios não significavam mais do que ausência prolongada dos homens. Tanto quanto sabíamos, naquela altura, os três sítios podiam ser fronteiriços. Existiam apenas nas fotografias da sala, só aberta para as visitas e onde entrávamos às escondidas da mãe. Decorávamos as folhagens longas e lustrosas, as roupas que eles usavam e tentávamos criar um mapa possível, inventávamos histórias do que acontecia naqueles lugares, autênticas epopeias. Um dia, já nós juntávamos as letras e a lousa era nossa companheira inseparável todas as manhãs na sacola, não foi preciso descer ao posto público. O Henrique, filho da dona Josefa, veio a nossa casa, subindo por este caminho íngreme que agora é de paralelos. Na mão, duas cartas: uma com selos de peixes num fundo azul, uma rainha espreitando no canto do pequeno rectângulo e o nome que enrolávamos devagar no céu-da-boca, tentando entender como fazer o som de um R junto de um H. Devagar. Como mel deslizando pela boca: Rhodééésiaaa. A outra com flores-de-lis, paisagens bucólicas. “République Françáise”, dizíamos em voz alta, levantando bem o nariz, esticando o pescoço e todo o corpo, até ficarmos em bicos dos pés. Na outra mão, um telegrama. O pai, perdido em Luanda, não voltaria mais.

Tinha dez anos quando fugi de casa. Durante um ano o pensamento não me saiu da cabeça. Aquela vida, o campo, as vacas que era preciso levar ao pasto, ordenhar, mudar-lhes a palha da cama... As vindimas que nos puxavam os braços acima da cabeça, fazendo com que os dedos ficassem brancos e frios enquanto Setembro acalmava o calor. A missa ao domingo, a catequese a ensinar-nos que, aos nove anos, podíamos já arder no fogo do Inferno. A côdea de pão roubada que nos inscrevia na  escala dos sete pecados capitais. Nada daquilo era para mim. Não sabia o que havia para além daquela vida, mas aquilo, não era, definitivamente, para mim. Uma semana antes, passei pelo apeadeiro. O Tóni do Trem, que vendia os bilhetes e que, quando se aproximava o comboio, punha o chapéu, cofiava cuidadosamente o bigode já branco e saía para a estrada, empunhando a bandeirola que um dia fora vermelha e agora era apenas um farrapo alaranjado, lá estava no seu lugar. Sentado numa velha cadeira, atento à moçada que fazia covas entre as linhas e se deitava nelas quando o comboio passava. Eu ganhava sempre esse jogo. Aguentava sempre a passagem das carruagens, rápidas e pesadas, por cima de mim. Apertava as mãos contra o corpo e abria muito os olhos, tentando ver as entranhas daquele monstro que, a qualquer momento, me podia tirar a vida, acabar com tudo. Naquele dia, porém, não procurava aquelas emoções fortes, apesar do coração se empurrar contra as costelas. Esfregava com força o esterno, tentando encobrir o nervosismo. “Tóni! Quanto custa um bilhete para a cidade?” Não era apenas um bilhete para a cidade. Era um bilhete para uma outra vida. Corri para casa e, aproveitando toda a gente ter saído para apanhar lenha, procurei debaixo do colchão da avó. Sabia que era ali que guardava o dinheiro que fazia na feira, a vender broa de milho. Cinquenta escudos. Era o que eu precisava. Não havia volta a dar. No dia seguinte, o comboio chegou. Debaixo da camisola, outras camisolas. Por cima das cuecas, camadas de roupa interior. Na saca que trazia na mão, um pedaço de broa, roubado da fornada para a feira e um pedaço de papel. Poderia querer escrever um dia à minha mãe.

Somos quatro irmãs à mesa. A mesa onde comíamos todos os dias da nossa infância. Os bancos de madeira, corridos. Duas de cada lado. Quando a mãe ainda aqui estava, ficava à cabeceira da mesa e o pai, quando ainda cá estava, na outra ponta. A mãe punha sempre uma cadeira grande, de braços, com o assento almofadado de veludo amarelo, para o pai se sentar. Para ele, só o que havia de melhor. A mesa enchia-se de travessas de comida cujos restos comíamos ao pequeno-almoço, aquecidos numa sertã com azeite. A sala de estar abria-se e o pai passava lá o tempo, depois da hora de jantar, com os pés em cima de um banco, a fumar cachimbo e a contar, em voz alta para que da cozinha o ouvíssemos, enquanto lavávamos a loiça, as suas façanhas africanas. Como um dia tinha acordado e um leão espreitava pela janela do quarto. Como em toda a África o nome dele era sinónimo de autoridade. De como por lá o nome que cá usávamos para o chamar era desconhecido. Lá, a única coisa que lhe chamavam e pela qual ele respondia era por “boss”. Nenhuma de nós acreditava nele. Na nossa cabeça, ele deitava-se com as pretas, as mulatas, as cabritas e as brancas que quisesse. Na nossa cabeça, ele era apenas mais uma boca para alimentar, quando cá estava, já que nunca enviava dinheiro de lá. Todas fazíamos pequenos trabalhos para os vizinhos, na casa dos senhores da aldeia, tudo para haver comida na mesa, ao fim do dia. Quando ele não estava, sentávamo-nos à mesa as cinco, um garfo para cada uma e a tigela da comida no centro. Não havia histórias de África mas também não havia mais nada. Apenas silêncio. O som do metal a bater no esmalte da tigela. Hoje só há silêncio. As minhas irmãs trouxeram os maridos. Três desconhecidos que fumam, do lado de fora da porta. Olho-os e mal os vejo. O dia já anoiteceu há um bom bocado. Cá dentro, as costas curvam-se sobre a mesa. Alguém ligou a luz. Lembro o dia em que os homens vieram fazer a puxada. O pai tinha voltado do Porto e trazia histórias luminosas de como os homens construíram a terceira ponte. Histórias de cimento, aço e betão. Quase sentíamos, na língua, o sabor metálico das estruturas. Adormecíamos as quatro na mesma cama, discutindo pormenores sobre o desenho de uma ponte que nunca tínhamos visto. O arco que se curvava por cima do rio, sem lhe tocar. “O maior do mundo!”, tinha dito o pai. Na altura ainda acreditávamos nele. E a luz, a luz que ele dizia entrar num globo de vidro e iluminar toda a casa. E assim foi também na nossa. O pai chamou os homens e eles vieram. Fomos os primeiros a ter electricidade na aldeia. Os
vizinhos vinham ver e mexer no interruptor. Para cima e para baixo. No fundo do pátio, as velhotas da aldeia, de xaile preto pela cabeça aglomeravam-se junto ao portão, protegendo-se do frio da noite e comentando com desconfiança as modernices. Durante semanas, a nossa casa foi a atracção. As velhas foram as primeiras a desistir. De seguida, os homens que já não apareciam com o cair da noite, a pedir uma malga de tinto e a mexer discretamente no interruptor. A seguir, as crianças. Era difícil manterem-se interessadas quando, na realidade, a única brincadeira possível eram competições para ver quem era mais rápido a ligar e desligar a luz ou a fazer balançar a lâmpada. Tudo proibido pela mãe, que enxotava quem o tentava fazer. As únicas resistentes foram as vizinhas, amigas de infância da mãe. À noite, depois de jantar e enquanto arrumávamos a cozinha, começavam a chegar. Uma a uma, entravam pelo portão, silenciosamente, e iam-se instalando junto da fogueira com a sua renda. Quando todas chegavam, a mãe fazia-nos um sinal e a minha irmã mais velha ia buscar o terço. “Vamos meninas, rezemos o terço”. Quando o pai estava fora, era pior. Aí era o rosário, com os seus mistérios e eu, pequena ainda, ia-me encostando à minha irmã mais velha. As palavras enrolavam-se na língua e as pálpebras fechavam-se. Eu lutava contra o sono que se colava a mim sem piedade. Os braços pesados, os joelhos a fraquejar e, mal sentia o corpo ceder, a mão da mãe numa palmada seca na minha cabeça.

Tinha catorze anos quando decidi escrever para casa. Avizinhava-se o dia da mãe e na escola, todas preparavam cartões com quadras amorosas. “Mãe, tu és uma rosa”, dizia o meu, a frase copiada do quadro negro, da cabeça de uma professora que só conhecia as ruas alcatroadas da cidade, para meninas que só conheciam as mãos macias que as aconchegavam à noite na cama. Não queria ficar atrás daquelas meninas, bem vestidas, a saia sempre nova, a camisa branca com botões de madrepérola. E eu. A criada da Mariana, cujos pais, gente benevolente e com tendências caridosas, me tinham acolhido e permitiam que frequentasse a escola com a filha. As roupas velhas da Mariana e das irmãs ficavam para mim. Passava noites no quarto, depois de tudo arrumado e os deveres feitos, a remendar roupa, a fazer bainhas, a apertar camisas e vestidos. Levantava-me às cinco da manhã. Tinha de fazer o pequeno-almoço e preparar a roupa das crianças da casa. Era uma casa muito diferente das casas da minha infância. Os tectos altos, as paredes lisas, os cantos rectos. Grandes quadros pelas paredes, as molduras grossas, cheias de curvas e madeira dourada. As telas, com gente sentada muito direita e olhos arregalados, amedrontavam-me e faziam-me apressar o passo cada vez que tinha de passar em frente a elas. As portas de vidro tremiam nos dias de muito vento e o candelabro de cristal do salão tilintava sem descanso. O meu quarto, no sótão, tinha apenas a cama, um candeeiro a petróleo, uma mesa e uma cadeira. Ao lado da cama, uma pilha de velhos livros. Livros que ia encontrando abandonados, livros que os donos da casa ou as crianças me davam porque estavam velhos, riscados, porque lhes faltavam páginas. Eu guardava-os a todos. Religiosamente, alisava as folhas mais amachucadas, lia com redobrada atenção os sublinhados que outros antes de mim tinham feito e tentava perceber o que estava por detrás daquelas palavras. O que tinha pensado aquela pessoa, ao ler aquilo, quem seria o autor daquelas palavras, e como os três existíamos, naquele preciso momento, no mesmo lugar. Como se estivéssemos naquele sótão reunidos, a trocar ideias sobre aqueles textos. No fim de cada Verão, a família mandava-me sempre para casa, para visitar a mãe e as minhas irmãs. Vinha fazer a vindima com elas e entregar à mãe o dinheiro que ganhara durante o ano. Antes de chegar à aldeia, passava pelo talho e pela mercearia e enchia o saco. A lista era sempre a mesma: carne de vaca, azeite, arroz, açúcar, aletria. Naquele ano, ao chegar a casa, tinha a mãe à espera com o postal na mão. O postal que dizia “Mãe, tu és uma rosa”, na minha letra redonda e cuidadosamente desenhada. À mesa da cozinha, ela esperava-me. A minha irmã mais nova tinha subido a ladeira até nossa casa, a correr à minha frente, e tinha-a avisado que eu estava a caminho. Quando a vi com o postal na mão, sorri. Ela tinha-o recebido, tinha-o guardado e esperava-me com ele na mão. “Mãe, cheguei”, disse, pousando as compras no chão. Em silêncio, ela levantou-se, agarrou-me o braço pelo cotovelo, arrastou-me pátio fora, atravessámos a estrada, entrámos em casa da tia Maria do Monte que, sentada à fogueira, vigiava a sopa na panela. A minha mãe largou-me e abriu, em frente da mulher analfabeta, o postal que eu lhe tinha enviado. “Veja isto, tia Maria. Veja esta ordinária. Onde já se viu, uma filhatratar uma mãe por 'tu'?”.

Nenhuma de nós tem filhos. Estamos secas por dentro. Das quatro, só eu engravidei. Duas vezes. A minha irmã mais velha nunca os quis, até ser demasiado tarde. A minha irmã mais nova sempre os quis e nunca conseguiu. A minha outra irmã nunca pensou muito nisso. Também não valia a pena pensar. A família termina aqui, connosco. Mocho não era o nosso nome de família. Era apenas o nome pelo qual o pai era conhecido na aldeia. Quando era jovem, dizem os mais velhos, vagueava pelos caminhos, toda a noite. Os antigos diziam que o pai se cosia às árvores de tal maneira que nem os lobos davam por ele. Às vezes, quando éramos pequenas e o pai já estava perdido, ouvíamos os lobos a uivar no monte e a mãe dizia da cama dela, sem abrir os olhos “São recados do vosso pai, ouçam com atenção!”. E nós acreditávamos porque acreditámos sempre no que a mãe dizia. E as quatro na mesma cama, apertávamo-nos umas contra as outras e tentávamos decifrar o que o pai tinha para dizer. Talvez fossem as coordenadas de onde estava, talvez se tivesse transformado em lobo. Será que um mocho conseguia abdicar de voar? Em nossa casa nunca houve animais que voassem efectivamente. Não havia preocupações com as galinhas, mas com os patos era mais complicado. Era preciso saber cortar-lhes as penas antes de começarem a voar. Um dia, a minha irmã mais velha não cortou bem as penas da asa de um par de patos que tínhamos e os dois voaram sem que nunca mais os víssemos. Quando a mãe chegou a casa e descobriu, foi buscar o cinto do pai e bateu-lhe. A camisa, de folhos nos ombros e pequenos animais azuis, era o orgulho da minha irmã mais velha que, já a trabalhar, começava a comprar os seus pequenos luxos. Uma camisa linda, fininha, que quase não lhe tocava a pele, de tão delicada. Foi a primeira a ceder e a rasgar. A seguir, a pele morena e tisnada que denunciava anos de trabalho ao sol. Quase se podia sentir o sabor da terra, naquela pele. Os vergões abriram de repente nos ombros, manchando-os de sangue. A minha irmã mais velha não disse nada. Não se queixou, nem sequer soluçou. De olhos vermelhos e marejados, limitou-se a pedir licença à mãe e continuou a fazer o almoço para todas. Quando a mãe estava mais bem disposta, dizia que naquela casa os únicos animais com direito a voar eram as andorinhas de barro que adornavam a parede. Todas nos ríamos com a observação. Como podia a mãe pensar que andorinhas de barro conseguiam voar?

Os três homens entram na cozinha e dizem-nos que começou a chover. “Vai ser difícil, se chove”, disse o marido da minha irmã mais nova. “Sim, a terra não se aguenta... Talvez tenhamos de adiar o funeral”, concluiu o marido da minha irmã mais velha. Talvez fosse melhor comprar uns sapatos novos, penso. Podia ir à cidade amanhã de manhã, antes da missa. Qualquer coisa serve, desde que sejam pretos. Antigamente, tínhamos apenas um par, sempre de cor preta, que servia apenas para ir à missa ao domingo. A mãe comprava sempre dois números acima do que precisávamos para que os nossos pés crescessem neles. Quando os pés começavam a sobrar, os sapatos passavam para a irmã seguinte. Por saber que as minhas irmãs mais novas nunca tinham nada de novo, quando vinha a casa, depois da fuga, trazia-lhes sempre algo só para elas. Uma fita para o cabelo, um saco de caramelos, umas meias de seda. Sentada num banco, a fiar, a minha mãe observava tudo ao longe. Mal as prendas eram distribuídas ela levantava-se, apagava a luz e ia para o quarto. Ficávamos as quatro às escuras, as mais novas entusiasmadas, aos pulos na escuridão e a minha irmã mais velha preocupada: “Ainda derrubam um banco ou caem, estejam quietas que a mãe já foi dormir”. Mas a mãe não ia dormir. Encostava a porta do quarto, abria a arca que tinha aos pés da cama e tirava de lá os longos panos de linho que tecia no tear que guardávamos junto às cortes das vacas. Por baixo deles, as fotografias do pai que, depois do telegrama, desapareceram das molduras. Em cima da colcha da cama, ela espalhava-as, como se nelas conseguisse ler o futuro, tentando entender onde estava o sinal de que tudo ia acabar assim.

A minha irmã do meio tem um cancro, acabou de mo dizer, à entrada do quarto. O bicho que matou a mãe, corrói-lhe agora as entranhas. Como aconteceu com a mãe, também este se instalou no peito. De todas, é a mais parecida com ela. Pequena, magra, de dedos sempre curvados, como se não conseguisse abrir a mão completamente. Já para o fim, o peito duro, o bicho a empedernir o que faltava. A cara que se alongou. A pele cinzenta e macilenta. Passei anos sem as ver. Não voltei mais à aldeia, cortei qualquer tipo de contacto e, durante todo este tempo, fui órfã. Trabalhei muito na casa que me acolheu e estudei sempre. Mais tarde, a vida do campo, a vida de serviço, ficaram para trás. Encontrei um trabalho numa biblioteca da cidade e um pequeno apartamento. Os amores aconteceram mas nenhum ficou. Tal como as crianças no meu ventre. Mas não há dia que não me lembre deste sítio, não há dia que não me lembre delas. A voz da minha mãe ainda ecoa dentro da minha cabeça. Ainda são os ecos deste lugar que me magoam mais. A arca da mãe está agora no corredor. Por cima, uma carta dirigida às filhas, na sua letra de quase analfabeta, muito tremida, as linhas que não conseguiam manter-se direitas na folha, as palavras a escorregarem pelo papel. Nele, três indicações claras: o linho a dividir entre as três que trabalharam para a casa. A casa para a mais velha. Para mim, a saca de serapilheira que
estava dentro da arca.

Apesar da chuva, o funeral fez-se e o corpo da mãe desceu à terra. Ali ficou, solitária, como sempre foi na vida. Despeço-me das minhas irmãs com um abraço. A saca fere as mãos e a mala que trouxe pesa-me. Volto a apanhar o comboio no mesmo local de onde, tantos anos antes, fugi. Hoje em dia já não há ninguém a vender bilhetes. Os miúdos já não se deitam na linha e a estrada tem umas cancelas automáticas que descem à aproximação das composições. Subo para a carruagem e procuro o meu lugar. Arrumo a mala por cima do assento e mantenho a saca no colo, encostada a mim. A serapilheira fura o tecido da camisa, da saia e pica-me o corpo. Aperto-a mais contra mim. Não sinto mais nada a não ser aquele pequeno castigo. Fico com as mãos vermelhas, o peito e as pernas inchadas. Devagar, desato a corda que fecha a saca. Lá dentro, um papel, na letra da mãe: “Nesta casa, só as andorinhas de barro podem voar”. Por baixo, os cacos das andorinhas que um dia enfeitaram a casa."

3 comentários:

fallorca disse...

O Zé Mário tinha razão; aguardemos

S. G. disse...

parabéns pelo texto.

mjc disse...

Speechless sou eu, depois de ter lido este belíssimo conto.