20 de janeiro de 2015

não sei como aconteceu. o coração desacelera agora, depois de tudo.

mas primeiro bateu por fora da pele, do lado do mundo real. as miudezas expostas numa mesa, coberta pelo pano verde da cirurgia. o sangue, cujo tipo nunca lembro e que impossibilita sempre as transfusões e as dádivas. o sangue era abundante e escorria-me pela perna esquerda. disso lembro. a mancha que ficou na carpete, branca e felpuda. a ansiedade em ti. mãos ocupadas, longe do corpo, olhar sempre o horizonte é o truque de quem enjoa na estrada.

mas o sangue já corre normalmente nas veias. o coração bombeia-o no seu vagar de músculo cansado, de quem regressou à cavidade apropriada, ao tamanho e à função normal. só a cicatriz permanece, a celebrar o acidente. intocada e intocável.