15 de fevereiro de 2015

Regresso ao lugar onde aprendi a andar. Faz parte da minha mitologia privada que um dia, me levantei e andei.

Não se vê nada à nossa volta. O nevoeiro é demasiado espesso. Não sabemos sequer se algum dia voltaremos a ver: o rio, no horizonte da janela; a cidade, que do topo do monte parece não ter fim; a lua sobre os telhados, as constelações a traçar o futuro. 

Volto a sentir a areia por debaixo dos pés. Não é que tenha desaprendido a andar. É que a ondulação das dunas ainda persiste na planta onde o corpo assenta. 


Nada temas das lágrimas que escorrem pelo meu rosto. É apenas o vento que me corta o olhar. 

2 de fevereiro de 2015

o chão a fugir-nos debaixo dos pés. ou talvez tenha sido apenas um passo em falso. talvez seja apenas um esticão do corpo, enquanto durmo - o mecanismo de defesa natural do organismo, para se certificar de que continua vivo. ou talvez tenha sido apenas um tropeção, no meio da rua. as saias espalhando-se pela calçada portuguesa. toda a gente sabe que a calçada nacional, os quadrados brancos e azuis escuros, são um perigo para as pernas nacionais, que se querem pequeninas, como a sardinha, toda a gente sabe.

sim, certamente terei sido eu. afinal de contas, as rótulas têm as ligações trocadas, os pés poucos pontos de apoio e a anca um defeito infligido à nascença que agora, especialmente agora, não me deixa avançar com a certeza necessária, rua abaixo.