29 de setembro de 2014

Repenso e repiso. 

Todas as frases, todos os enredos que criaste, tentado retirar algum sentido. Talvez seja hábito de quem cria histórias, talvez queiras ter mesmo acreditado em tudo. Talvez tenha sido verdade. Talvez não. 

Repenso e respiro. 

Estou impedida de dar murros no ar, por indicação médica. Aprendo que há hemisférios onde as estações são apenas duas. Aprendo que há meridianos onde a vida se parece separar em duas e que o truque é nunca suster a respiração mas continuar a respirar normalmente. 

7 de setembro de 2014

Espreito a vida que poderia ser minha, com a discrição possível.

Apesar de tu suspeitares que eu estou sempre, do outro lado da porta. E raramente te enganas. 

15 de julho de 2014

So I hope you're listening right now
Cause I can barely hold my tongue
The sh*t we do could warm the sun



que é o mesmo que dizer que penso em ti.

13 de julho de 2014

Ninguém te diz mas tu sabes. A mão à volta do pescoço, o corpo em tensão. O ar que me falta, a tua mão a controlar a minha vida. E sentir-te dentro de mim, enquanto me sussurras ao ouvido "e agora, já te estou a magoar?"

27 de junho de 2014

o corpo sabe bem a quem pertence. braços e pernas na devida proporção. uma suspeita que vem debaixo da pele, impressa directamente na carne. porque é de carne que falamos. o corpo sabe a quem pertence. a identificação do outro, mesmo ao longe. os braços que se tocam, as pernas que se aproximam. o teu peito procurando o meu. a tua boca tão perto.

sabes bem onde me encontrar. só falta que me procures.

17 de junho de 2014

Help, head. Help heart.
Lydia Davis, Varieties of Disturbance

stop jumping

não há escrita que nos salve. não há tempo que cure tudo. tenho cicatrizes onde anteriormente descansavam as tuas mãos. procuro novas formas de rasgar o corpo, separá-lo em compartimentos estanques, facilmente geridos. torno-me na minha própria senhora, dando ordens a órgãos individuais para que trabalhem. concentro-me nesta tarefa, que me torna soberana de mim própria. ocupo o tempo com calendários, agendas ocupadas para quando o estômago pode ou não funcionar, para quando o fígado pode parar a produção diária de um litro, nem um centilitro a mais, nem um a menos. rasgo o corpo em diferentes partes para que ninguém, nem eu, as possa tocar todas ao mesmo tempo.

You don't think before you jump
é esse o problema...

23 de fevereiro de 2014

30 de janeiro de 2014

as coisas que nos dizemos para disfarçamos as verdade do que sabemos.

inícios de frases, repetidos à exaustão. sem nenhum ponto que as finalize. nenhum verbo nas tuas palavras.

no fim, os corpos que nos uniram, não nos servem de nada. nem sequer abrigo oferecem...

2 de janeiro de 2014

é algo que te atinge de repente. sobe espinha acima e pára na base da nuca para voltar a descer contra a garganta, pelo avesso do peito, com a mesma velocidade.



You're lucky, the bedroom's my runway
Slap me! I'm pinned to the doorway
Kiss, bite, foreplay


27 de junho de 2013

12 de junho de 2013

Uma Saca Cheia de Andorinhas

A pedido de várias famílias, o meu conto - seleccionado para o Jovens Criadores 2012.

"Uma saca cheia de andorinhas

Não pensei que voltaria. Quando saí daqui, foi para nunca mais  voltar. Na altura, o chão era de terra batida. Hoje há paralelos que  saltam quando os carros passam. A rua agora tem uma placa e cada porta uma ranhura para o correio. Quando era pequena e ainda aqui vivia, descíamos pela aldeia até ao posto público, para ir buscar o correio. A dona Josefa esperava-nos com a correspondência. Já sabia que vínhamos a correr, ribeira abaixo, só por ouvir as nossas vozes. “Tomem lá andorinhas”, dizia ela, sem sair de trás do balcão, “não me trazem a Primavera mas levam as  cartas aos ninhos”. As varizes há muito que a tinham aprisionado àqueles dez metros quadrados, ao balcão e às cartas. Todos os dias a dona Josefa separava a correspondência. Um mapa que se estendia pela mesa da sala de trás. A dona Josefa não separava as cartas pela morada mas pelos graus de parentesco entre as  famílias. A correspondência da Ti Xica do Monte juntava-se à da Felismina dos Betos. Não que vivessem perto mas a Felismina era afilhada da Ti Xica e podia levar-lhe as cartas quando passasse por casa dela. A dona Josefa pousava cada carta como se conseguisse ler nelas o futuro de cada família, espalhando em cima da mesa todo o seu presente e o seu passado, desenhando assim a geografia afectiva da aldeia. Nós, os Mochos, tínhamos sempre um montinho de cartas à nossa espera. Uma do tio Rodrigo, lá longe na Rodésia. Outra do tio Joaquim, em Paris da França, e outra ainda do pai, perdido lá em Luanda. Para nós, os nomes daqueles sítios não significavam mais do que ausência prolongada dos homens. Tanto quanto sabíamos, naquela altura, os três sítios podiam ser fronteiriços. Existiam apenas nas fotografias da sala, só aberta para as visitas e onde entrávamos às escondidas da mãe. Decorávamos as folhagens longas e lustrosas, as roupas que eles usavam e tentávamos criar um mapa possível, inventávamos histórias do que acontecia naqueles lugares, autênticas epopeias. Um dia, já nós juntávamos as letras e a lousa era nossa companheira inseparável todas as manhãs na sacola, não foi preciso descer ao posto público. O Henrique, filho da dona Josefa, veio a nossa casa, subindo por este caminho íngreme que agora é de paralelos. Na mão, duas cartas: uma com selos de peixes num fundo azul, uma rainha espreitando no canto do pequeno rectângulo e o nome que enrolávamos devagar no céu-da-boca, tentando entender como fazer o som de um R junto de um H. Devagar. Como mel deslizando pela boca: Rhodééésiaaa. A outra com flores-de-lis, paisagens bucólicas. “République Françáise”, dizíamos em voz alta, levantando bem o nariz, esticando o pescoço e todo o corpo, até ficarmos em bicos dos pés. Na outra mão, um telegrama. O pai, perdido em Luanda, não voltaria mais.

Tinha dez anos quando fugi de casa. Durante um ano o pensamento não me saiu da cabeça. Aquela vida, o campo, as vacas que era preciso levar ao pasto, ordenhar, mudar-lhes a palha da cama... As vindimas que nos puxavam os braços acima da cabeça, fazendo com que os dedos ficassem brancos e frios enquanto Setembro acalmava o calor. A missa ao domingo, a catequese a ensinar-nos que, aos nove anos, podíamos já arder no fogo do Inferno. A côdea de pão roubada que nos inscrevia na  escala dos sete pecados capitais. Nada daquilo era para mim. Não sabia o que havia para além daquela vida, mas aquilo, não era, definitivamente, para mim. Uma semana antes, passei pelo apeadeiro. O Tóni do Trem, que vendia os bilhetes e que, quando se aproximava o comboio, punha o chapéu, cofiava cuidadosamente o bigode já branco e saía para a estrada, empunhando a bandeirola que um dia fora vermelha e agora era apenas um farrapo alaranjado, lá estava no seu lugar. Sentado numa velha cadeira, atento à moçada que fazia covas entre as linhas e se deitava nelas quando o comboio passava. Eu ganhava sempre esse jogo. Aguentava sempre a passagem das carruagens, rápidas e pesadas, por cima de mim. Apertava as mãos contra o corpo e abria muito os olhos, tentando ver as entranhas daquele monstro que, a qualquer momento, me podia tirar a vida, acabar com tudo. Naquele dia, porém, não procurava aquelas emoções fortes, apesar do coração se empurrar contra as costelas. Esfregava com força o esterno, tentando encobrir o nervosismo. “Tóni! Quanto custa um bilhete para a cidade?” Não era apenas um bilhete para a cidade. Era um bilhete para uma outra vida. Corri para casa e, aproveitando toda a gente ter saído para apanhar lenha, procurei debaixo do colchão da avó. Sabia que era ali que guardava o dinheiro que fazia na feira, a vender broa de milho. Cinquenta escudos. Era o que eu precisava. Não havia volta a dar. No dia seguinte, o comboio chegou. Debaixo da camisola, outras camisolas. Por cima das cuecas, camadas de roupa interior. Na saca que trazia na mão, um pedaço de broa, roubado da fornada para a feira e um pedaço de papel. Poderia querer escrever um dia à minha mãe.

Somos quatro irmãs à mesa. A mesa onde comíamos todos os dias da nossa infância. Os bancos de madeira, corridos. Duas de cada lado. Quando a mãe ainda aqui estava, ficava à cabeceira da mesa e o pai, quando ainda cá estava, na outra ponta. A mãe punha sempre uma cadeira grande, de braços, com o assento almofadado de veludo amarelo, para o pai se sentar. Para ele, só o que havia de melhor. A mesa enchia-se de travessas de comida cujos restos comíamos ao pequeno-almoço, aquecidos numa sertã com azeite. A sala de estar abria-se e o pai passava lá o tempo, depois da hora de jantar, com os pés em cima de um banco, a fumar cachimbo e a contar, em voz alta para que da cozinha o ouvíssemos, enquanto lavávamos a loiça, as suas façanhas africanas. Como um dia tinha acordado e um leão espreitava pela janela do quarto. Como em toda a África o nome dele era sinónimo de autoridade. De como por lá o nome que cá usávamos para o chamar era desconhecido. Lá, a única coisa que lhe chamavam e pela qual ele respondia era por “boss”. Nenhuma de nós acreditava nele. Na nossa cabeça, ele deitava-se com as pretas, as mulatas, as cabritas e as brancas que quisesse. Na nossa cabeça, ele era apenas mais uma boca para alimentar, quando cá estava, já que nunca enviava dinheiro de lá. Todas fazíamos pequenos trabalhos para os vizinhos, na casa dos senhores da aldeia, tudo para haver comida na mesa, ao fim do dia. Quando ele não estava, sentávamo-nos à mesa as cinco, um garfo para cada uma e a tigela da comida no centro. Não havia histórias de África mas também não havia mais nada. Apenas silêncio. O som do metal a bater no esmalte da tigela. Hoje só há silêncio. As minhas irmãs trouxeram os maridos. Três desconhecidos que fumam, do lado de fora da porta. Olho-os e mal os vejo. O dia já anoiteceu há um bom bocado. Cá dentro, as costas curvam-se sobre a mesa. Alguém ligou a luz. Lembro o dia em que os homens vieram fazer a puxada. O pai tinha voltado do Porto e trazia histórias luminosas de como os homens construíram a terceira ponte. Histórias de cimento, aço e betão. Quase sentíamos, na língua, o sabor metálico das estruturas. Adormecíamos as quatro na mesma cama, discutindo pormenores sobre o desenho de uma ponte que nunca tínhamos visto. O arco que se curvava por cima do rio, sem lhe tocar. “O maior do mundo!”, tinha dito o pai. Na altura ainda acreditávamos nele. E a luz, a luz que ele dizia entrar num globo de vidro e iluminar toda a casa. E assim foi também na nossa. O pai chamou os homens e eles vieram. Fomos os primeiros a ter electricidade na aldeia. Os
vizinhos vinham ver e mexer no interruptor. Para cima e para baixo. No fundo do pátio, as velhotas da aldeia, de xaile preto pela cabeça aglomeravam-se junto ao portão, protegendo-se do frio da noite e comentando com desconfiança as modernices. Durante semanas, a nossa casa foi a atracção. As velhas foram as primeiras a desistir. De seguida, os homens que já não apareciam com o cair da noite, a pedir uma malga de tinto e a mexer discretamente no interruptor. A seguir, as crianças. Era difícil manterem-se interessadas quando, na realidade, a única brincadeira possível eram competições para ver quem era mais rápido a ligar e desligar a luz ou a fazer balançar a lâmpada. Tudo proibido pela mãe, que enxotava quem o tentava fazer. As únicas resistentes foram as vizinhas, amigas de infância da mãe. À noite, depois de jantar e enquanto arrumávamos a cozinha, começavam a chegar. Uma a uma, entravam pelo portão, silenciosamente, e iam-se instalando junto da fogueira com a sua renda. Quando todas chegavam, a mãe fazia-nos um sinal e a minha irmã mais velha ia buscar o terço. “Vamos meninas, rezemos o terço”. Quando o pai estava fora, era pior. Aí era o rosário, com os seus mistérios e eu, pequena ainda, ia-me encostando à minha irmã mais velha. As palavras enrolavam-se na língua e as pálpebras fechavam-se. Eu lutava contra o sono que se colava a mim sem piedade. Os braços pesados, os joelhos a fraquejar e, mal sentia o corpo ceder, a mão da mãe numa palmada seca na minha cabeça.

Tinha catorze anos quando decidi escrever para casa. Avizinhava-se o dia da mãe e na escola, todas preparavam cartões com quadras amorosas. “Mãe, tu és uma rosa”, dizia o meu, a frase copiada do quadro negro, da cabeça de uma professora que só conhecia as ruas alcatroadas da cidade, para meninas que só conheciam as mãos macias que as aconchegavam à noite na cama. Não queria ficar atrás daquelas meninas, bem vestidas, a saia sempre nova, a camisa branca com botões de madrepérola. E eu. A criada da Mariana, cujos pais, gente benevolente e com tendências caridosas, me tinham acolhido e permitiam que frequentasse a escola com a filha. As roupas velhas da Mariana e das irmãs ficavam para mim. Passava noites no quarto, depois de tudo arrumado e os deveres feitos, a remendar roupa, a fazer bainhas, a apertar camisas e vestidos. Levantava-me às cinco da manhã. Tinha de fazer o pequeno-almoço e preparar a roupa das crianças da casa. Era uma casa muito diferente das casas da minha infância. Os tectos altos, as paredes lisas, os cantos rectos. Grandes quadros pelas paredes, as molduras grossas, cheias de curvas e madeira dourada. As telas, com gente sentada muito direita e olhos arregalados, amedrontavam-me e faziam-me apressar o passo cada vez que tinha de passar em frente a elas. As portas de vidro tremiam nos dias de muito vento e o candelabro de cristal do salão tilintava sem descanso. O meu quarto, no sótão, tinha apenas a cama, um candeeiro a petróleo, uma mesa e uma cadeira. Ao lado da cama, uma pilha de velhos livros. Livros que ia encontrando abandonados, livros que os donos da casa ou as crianças me davam porque estavam velhos, riscados, porque lhes faltavam páginas. Eu guardava-os a todos. Religiosamente, alisava as folhas mais amachucadas, lia com redobrada atenção os sublinhados que outros antes de mim tinham feito e tentava perceber o que estava por detrás daquelas palavras. O que tinha pensado aquela pessoa, ao ler aquilo, quem seria o autor daquelas palavras, e como os três existíamos, naquele preciso momento, no mesmo lugar. Como se estivéssemos naquele sótão reunidos, a trocar ideias sobre aqueles textos. No fim de cada Verão, a família mandava-me sempre para casa, para visitar a mãe e as minhas irmãs. Vinha fazer a vindima com elas e entregar à mãe o dinheiro que ganhara durante o ano. Antes de chegar à aldeia, passava pelo talho e pela mercearia e enchia o saco. A lista era sempre a mesma: carne de vaca, azeite, arroz, açúcar, aletria. Naquele ano, ao chegar a casa, tinha a mãe à espera com o postal na mão. O postal que dizia “Mãe, tu és uma rosa”, na minha letra redonda e cuidadosamente desenhada. À mesa da cozinha, ela esperava-me. A minha irmã mais nova tinha subido a ladeira até nossa casa, a correr à minha frente, e tinha-a avisado que eu estava a caminho. Quando a vi com o postal na mão, sorri. Ela tinha-o recebido, tinha-o guardado e esperava-me com ele na mão. “Mãe, cheguei”, disse, pousando as compras no chão. Em silêncio, ela levantou-se, agarrou-me o braço pelo cotovelo, arrastou-me pátio fora, atravessámos a estrada, entrámos em casa da tia Maria do Monte que, sentada à fogueira, vigiava a sopa na panela. A minha mãe largou-me e abriu, em frente da mulher analfabeta, o postal que eu lhe tinha enviado. “Veja isto, tia Maria. Veja esta ordinária. Onde já se viu, uma filhatratar uma mãe por 'tu'?”.

Nenhuma de nós tem filhos. Estamos secas por dentro. Das quatro, só eu engravidei. Duas vezes. A minha irmã mais velha nunca os quis, até ser demasiado tarde. A minha irmã mais nova sempre os quis e nunca conseguiu. A minha outra irmã nunca pensou muito nisso. Também não valia a pena pensar. A família termina aqui, connosco. Mocho não era o nosso nome de família. Era apenas o nome pelo qual o pai era conhecido na aldeia. Quando era jovem, dizem os mais velhos, vagueava pelos caminhos, toda a noite. Os antigos diziam que o pai se cosia às árvores de tal maneira que nem os lobos davam por ele. Às vezes, quando éramos pequenas e o pai já estava perdido, ouvíamos os lobos a uivar no monte e a mãe dizia da cama dela, sem abrir os olhos “São recados do vosso pai, ouçam com atenção!”. E nós acreditávamos porque acreditámos sempre no que a mãe dizia. E as quatro na mesma cama, apertávamo-nos umas contra as outras e tentávamos decifrar o que o pai tinha para dizer. Talvez fossem as coordenadas de onde estava, talvez se tivesse transformado em lobo. Será que um mocho conseguia abdicar de voar? Em nossa casa nunca houve animais que voassem efectivamente. Não havia preocupações com as galinhas, mas com os patos era mais complicado. Era preciso saber cortar-lhes as penas antes de começarem a voar. Um dia, a minha irmã mais velha não cortou bem as penas da asa de um par de patos que tínhamos e os dois voaram sem que nunca mais os víssemos. Quando a mãe chegou a casa e descobriu, foi buscar o cinto do pai e bateu-lhe. A camisa, de folhos nos ombros e pequenos animais azuis, era o orgulho da minha irmã mais velha que, já a trabalhar, começava a comprar os seus pequenos luxos. Uma camisa linda, fininha, que quase não lhe tocava a pele, de tão delicada. Foi a primeira a ceder e a rasgar. A seguir, a pele morena e tisnada que denunciava anos de trabalho ao sol. Quase se podia sentir o sabor da terra, naquela pele. Os vergões abriram de repente nos ombros, manchando-os de sangue. A minha irmã mais velha não disse nada. Não se queixou, nem sequer soluçou. De olhos vermelhos e marejados, limitou-se a pedir licença à mãe e continuou a fazer o almoço para todas. Quando a mãe estava mais bem disposta, dizia que naquela casa os únicos animais com direito a voar eram as andorinhas de barro que adornavam a parede. Todas nos ríamos com a observação. Como podia a mãe pensar que andorinhas de barro conseguiam voar?

Os três homens entram na cozinha e dizem-nos que começou a chover. “Vai ser difícil, se chove”, disse o marido da minha irmã mais nova. “Sim, a terra não se aguenta... Talvez tenhamos de adiar o funeral”, concluiu o marido da minha irmã mais velha. Talvez fosse melhor comprar uns sapatos novos, penso. Podia ir à cidade amanhã de manhã, antes da missa. Qualquer coisa serve, desde que sejam pretos. Antigamente, tínhamos apenas um par, sempre de cor preta, que servia apenas para ir à missa ao domingo. A mãe comprava sempre dois números acima do que precisávamos para que os nossos pés crescessem neles. Quando os pés começavam a sobrar, os sapatos passavam para a irmã seguinte. Por saber que as minhas irmãs mais novas nunca tinham nada de novo, quando vinha a casa, depois da fuga, trazia-lhes sempre algo só para elas. Uma fita para o cabelo, um saco de caramelos, umas meias de seda. Sentada num banco, a fiar, a minha mãe observava tudo ao longe. Mal as prendas eram distribuídas ela levantava-se, apagava a luz e ia para o quarto. Ficávamos as quatro às escuras, as mais novas entusiasmadas, aos pulos na escuridão e a minha irmã mais velha preocupada: “Ainda derrubam um banco ou caem, estejam quietas que a mãe já foi dormir”. Mas a mãe não ia dormir. Encostava a porta do quarto, abria a arca que tinha aos pés da cama e tirava de lá os longos panos de linho que tecia no tear que guardávamos junto às cortes das vacas. Por baixo deles, as fotografias do pai que, depois do telegrama, desapareceram das molduras. Em cima da colcha da cama, ela espalhava-as, como se nelas conseguisse ler o futuro, tentando entender onde estava o sinal de que tudo ia acabar assim.

A minha irmã do meio tem um cancro, acabou de mo dizer, à entrada do quarto. O bicho que matou a mãe, corrói-lhe agora as entranhas. Como aconteceu com a mãe, também este se instalou no peito. De todas, é a mais parecida com ela. Pequena, magra, de dedos sempre curvados, como se não conseguisse abrir a mão completamente. Já para o fim, o peito duro, o bicho a empedernir o que faltava. A cara que se alongou. A pele cinzenta e macilenta. Passei anos sem as ver. Não voltei mais à aldeia, cortei qualquer tipo de contacto e, durante todo este tempo, fui órfã. Trabalhei muito na casa que me acolheu e estudei sempre. Mais tarde, a vida do campo, a vida de serviço, ficaram para trás. Encontrei um trabalho numa biblioteca da cidade e um pequeno apartamento. Os amores aconteceram mas nenhum ficou. Tal como as crianças no meu ventre. Mas não há dia que não me lembre deste sítio, não há dia que não me lembre delas. A voz da minha mãe ainda ecoa dentro da minha cabeça. Ainda são os ecos deste lugar que me magoam mais. A arca da mãe está agora no corredor. Por cima, uma carta dirigida às filhas, na sua letra de quase analfabeta, muito tremida, as linhas que não conseguiam manter-se direitas na folha, as palavras a escorregarem pelo papel. Nele, três indicações claras: o linho a dividir entre as três que trabalharam para a casa. A casa para a mais velha. Para mim, a saca de serapilheira que
estava dentro da arca.

Apesar da chuva, o funeral fez-se e o corpo da mãe desceu à terra. Ali ficou, solitária, como sempre foi na vida. Despeço-me das minhas irmãs com um abraço. A saca fere as mãos e a mala que trouxe pesa-me. Volto a apanhar o comboio no mesmo local de onde, tantos anos antes, fugi. Hoje em dia já não há ninguém a vender bilhetes. Os miúdos já não se deitam na linha e a estrada tem umas cancelas automáticas que descem à aproximação das composições. Subo para a carruagem e procuro o meu lugar. Arrumo a mala por cima do assento e mantenho a saca no colo, encostada a mim. A serapilheira fura o tecido da camisa, da saia e pica-me o corpo. Aperto-a mais contra mim. Não sinto mais nada a não ser aquele pequeno castigo. Fico com as mãos vermelhas, o peito e as pernas inchadas. Devagar, desato a corda que fecha a saca. Lá dentro, um papel, na letra da mãe: “Nesta casa, só as andorinhas de barro podem voar”. Por baixo, os cacos das andorinhas que um dia enfeitaram a casa."

power songs

for a low battery heart

rockalhada by Ines Bernardo on Grooveshark

6 de junho de 2013

remédio caseiro

a raquel envergonhou-me.

já há muito tempo que não me envergonhava e aproveitou um início de tarde, com o rio ao fundo da rua, a primavera e o passado logo ali ao lado, para me encostar contra uma parede vermelha e matar saudades.

para ambas matarmos saudades. falarmos das vidas, dos anos, dos amores e desamores.

e deu nisto...

http://raquelcaldevilla.blogspot.pt/2013/06/remedios-caseiros-ines-bernardo.html
o estômago colado ao fundo de mim. dobro o corpo em dois para tentar entender a direcção do embate.

mantenho os olhos em ti, quando entras assim, casa adentro, me puxas o cabelo, me empurras para cima da cama. os teus joelhos prendendo-me as pernas, a boca forçando-se contra mim.

mas quando se avança a toda a velocidade não se vê de onde vem o perigo.



28 de maio de 2013

Quando a adrenalina passa e o coração passa a bombar sangue a um ritmo normal. 

Há um vazio. Sem nenhuma falta, sem nenhuma forma. Um vazio apenas. Não uma ausência. Apenas o nada, o zero. 

27 de maio de 2013

"saio hoje ao mundo,
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro sempre um sufoco,
iminente para sempre"

Herberto Helder 

Tive quase pudor de postar isto, de tão intimo o sinto...

15 de maio de 2013



But I am the greatest motherfucker
That you're ever gonna meet
From the top of my head
Down to the tips off the toes on my feet

 So go ahead and love me while it's still a crime
And don't forget you could be laughing
65 percent more of the time

13 de maio de 2013

"aos trinta diria que o coração já pede amores mais subterrâneos o platónico anda muito lá pelas copas das árvores"

 .jb. dixit.

 caramba... devíamos falar mais vezes sobre a natureza literal do amor.

11 de maio de 2013

Tu que buscas companhia / e eu que busco quem quiser

Tu estás livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos
Tu estás só e eu mais só estou
Que tu tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta
Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te dás
Tu que buscas companhia
E eu que busco quem quiser
Ser o fim desta energia
Ser um corpo de prazer
Ser o fim de mais um dia
Tu continuas à espera
Do melhor que já não vem
E a esperança foi encontrada
Antes de ti por alguém
E eu sou melhor que nada

8 de maio de 2013

too good for me



and yet, I keep coming back to you. se ao menos me deixasses ter uma noite tranquila... sem me invadires os sonhos. e depois as vontades. e os dias. é uma aprendizagem. estar perto e, ainda assim, longe. saber que sabes que eu não mereço esse amor.

27 de abril de 2013

epitáfios



I will let you down,
I will make you hurt

If I could start again,
A million miles away,
I will keep myself,
I would find a way

11 de abril de 2013

começar devagar uma nova década. O ritual da casa em silêncio. O jantar na mesa, o gato no parapeito, espreitando o barulho da cidade lá fora.

Saio para percorrer a cidade a pé. Todas as grandes histórias começam com uma caminhada.

8 de abril de 2013

há algo que me escapa e que me parece ser da compreensão geral. no entanto, mantenho-me à parte e assim, há algo que me escapa.



como me manter satisfeita, contentada, quieta. como fazer com que a cabeça corra sempre à frente do corpo e não atrás dele. como parar a corrida. como voltar atrás, seguindo sempre em frente.

9 de março de 2013

nem sempre o futuro chega


6 de março de 2013

Cabeça em desordem

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Hilda Hilst

inquietação


26 de fevereiro de 2013

a ansiedade que espreita a cada momento. Um compasso de espera e aí está ela. espreguiçando-se dentro de mim.

tinham já passado anos quando descobriram os seus corpos, na cave daquele prédio. ninguém ali entrava há já muito tempo. há demasiado tempo. e agora que a pequena multidão de gente se aglomerava à sua volta, não conseguia destrinçar de quem era aquele braço, de quem era aquela perna, de tão unidos que os corpos estavam.

mas são detritos. ruínas apenas.




curioso como só anos depois consigo começar a ver os destroços que deixaste.


18 de fevereiro de 2013

o corpo recorda-me da sua fragilidade

e, entre cãibras e reacções menos literárias, resultantes dos fluxos estomacais, da bílis e do fel que tudo toma, vou pousando o ouvido nisto, esperando que o corpo se resigne à sua condição de mortal.

1 de janeiro de 2013

esperar pacientemente pelo inverno para ouvir, dentro de ti, as constelações respiratórias que trazes contigo. "é nesta altura do ano que se ouvem melhor", dizes-me tu ao ouvido. e eu não tenho porque duvidar.


11 de dezembro de 2012

não sei bem como passar por aqui. por muito que repita o mantra (é normal estar triste. as mortes demonstram a fragilidade humana. todos vamos morrer. é normal estar triste. as mortes demonstram a fragilidade humana. todos vamos morrer. é normal estar triste. as mortes demonstram a fragilidade humana. todos vamos morrer. é normal estar triste. as mortes demonstram a fragilidade humana. todos vamos morrer...)

nada faz passar esta tristeza imensa que se instalou em mim.


só o tempo poderá curar esta morte tão súbita, tão inesperada.

(Igor, a conversa não azeda realmente... espero que um dia a possamos retomar. onde quer que seja...)


19 de outubro de 2012

de como a escrita nos pode encher o coração de felicidade e marejar os olhos. de como todo o cansaço do mundo, todas as frustrações, se tornam mais leves.

de como um bando de andorinhas, metidas num saco e transformadas em título, se tornaram no meu mais querido e belo feito.

obrigada, obrigada, obrigada.

11 de outubro de 2012

é um aperto no peito.

quase nada, sussurro-te ao ouvido. 

na realidade é o roçar das penas contra a parede da garganta. é o esticar da asa, lentamente, após uma longa noite de sono. o bico que se encosta contra as cordas vocais.

ansiedade pura que cresce em mim. o corpo dói com este outro que cresce dentro e agora se estica lentamente até aos limites da minha humanidade.

12 de setembro de 2012

pegar no telefone e escolher o teu número. ligar-te e contar-te.

que me deste aquilo de que eu mais precisava agora.

14 de agosto de 2012

na tua mão, a foto. olhamos para ela e não nos reconhecemos. a memória que tínhamos desse momento esvaiu-se nas tuas e nas minhas mãos. 


mas parecemos contentes.

1 de junho de 2012

empurra-me contra a parede branca. tapa-me a boca com força enquanto te puxo para mim. não deixes que te murmure obscenidades susceptíveis de serem ouvidas do outro lado da porta fechada. a camisa rasga por onde te agarro. mordes-me em resposta. guias a minha mão numa imposição, viras-me do avesso e libertas-me das regras.

penso por momentos quem estará, ignorante, do lado de lá desta parede. empurro-te de seguida, num jogo cujas regras nunca discutimos e que aprendemos a jogar numa outra vida.


guardo ainda na boca o sabor do teu corpo
é por estremeceres que sei

que a minha e a tua pele não estão tão distantes quanto parecem.

28 de maio de 2012

um arrepio que me percorre. iluminar-te por dentro com a surpresa que é a minha pele. os dedos que me percorrem. o contraste entre as duas peles. e o mistério que é o teu sentir. como fechas os olhos e jogas a cabeça para trás quando te toco aqui. e aqui. as mãos que agarram os lençóis. cerras os dentes. mordo-te aqui para que ainda saibas amanhã por onde estive. 

traço no teu corpo um mapa exacto, marco o norte para que saiba sempre o sentido certo da migração dos pássaros.




descobrir de novo aquele sítio secreto que é o fim do teu pescoço, o início dos teus ombros...

10 de maio de 2012

3 de maio de 2012

sensorial overload




tudo está bem


Eduardo Carranza 
in Um país que sonha (cem anos de poesia colombiana)

the first time

a primeira vez que te escrevi não sabia que te ia escrever sempre. que, a partir do momento em que pus no papel o teu nome, te inscrevi em todas as páginas que li e todas aquelas que viria a ler. que, cada vez que pegaria numa caneta, as letras do teu nome se desenhariam no ar, antes da tinta tocar o papel.

também não sabia que, se te tocasse, o que há de humano em mim morreria e que te tornarias num animal que me habita. que não me deixarias mais dormir nem sossegar. que os meus dias deixariam de ter noites e que a luz constante passaria a torturar-me o sono.

que as palavras voltariam a transbordar como se nunca me tivessem deixado.

16 de abril de 2012

ter duas vidas. ser o fantasma de mim própria e habitar duas cidades tão diferentes.
conto os segundos que passam pela arritmia cardíaca que se instalou no meu peito. há papéis que represento a custo e os diálogos parecem-me dessincronizados. a tua boca mexe mas dela não sai qualquer som.

as tuas palavras chegam-me quando já estou sentada no metro e sigo pela cidade subterrânea. e não adiantam nada porque já estás longe de onde estou. porque vais sempre dois passos à minha frente...

i broke it and i can't fix it.

11 de abril de 2012

9 de abril de 2012

You can get addicted to a certain kind of sadness




But you didn't have to cut me off
Make out like it never happened
And that we were nothing
And I don't even need your love
But you treat me like a stranger
And that feels so rough

4 de abril de 2012

render-me lentamente a este demónio que vive dentro de mim e me puxa as terminações nervosas com uma só mão. a cabeça inclina-se para trás e uma vertigem percorre o corpo. sussurro-te baixinho o que sei que queres ouvir. a palavra-passe para que deixemos aquilo que nos torna racionais no chão, como trapos velhos. aqui, agora, não há nada que não seja animal.

uma mão que rapidamente me puxa o cabelo, outra que me empurra contra a parede. novamente, a palavra-passe. desta vez olhando-te nos olhos. para que saibas que falo a sério. agarro na tua mão e conduzo-a por mim. sabes demasiado bem a minha cartografia pessoal, sem que nunca me tenhas visitado.

sem hesitações, as palavras certas. o desvendar de um segredo
e uma frase que não encontra o fim

29 de março de 2012

escrever III

Sento-me à mesa. É um banco velho este. Obriga a que as costas se curvem com o peso dos minutos. Pões-me um papel à frente. Folha branca, imaculada.

Mas o que não sabes é que a escrita só me acontece quando tenho linhas por onde me coser.

22 de março de 2012

ainda lembro todos os primeiros pormenores. o que tínhamos vestido. a maneira como a cor da minha pele era bastante mais escura. a maneira como estremeceste quando entrei no carro. quase sentindo o teu coração contra o meu peito, apesar de não me teres tocado ainda. apesar de ainda não nos termos abraçado. e o teu olhar. recordo o teu olhar, fugindo do meu, procurando o meu.

ainda sinto todos os primeiros pormenores. a entrada de um prédio, o mármore cinzento, frio nas minhas costas. a tua mão quente, descendo pelas minhas pernas. o que tinha vestido, o que tinhas vestido e o que eu pensava que o futuro me reservava.

23 de novembro de 2011

Voltar a escrever II

descobrir: que ainda há música dentro de mim. e palavras indizíveis, sem forma definida ainda. palavras à espera de se encontrarem

13 de outubro de 2011

se bem te recordas...

houve um dia em que tudo desapareceu. não reconhecias mais o mundo porque nada nele te lembrava de ti. e voltaste a ver tudo pela primeira vez. lentamente, o sangue voltou a correr, urgentemente, pelas veias.

se bem te recordas...

não tens coração que consiga manter o ritmo durante muito tempo. afinal de contas, é um coração que bate devagar. muito devagar.

12 de outubro de 2011

I like to keep some things to myself


It's a shot in the dark and right at my throat

com duas pedras na mão

falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida

Bénédicte Houart in Aluimentos

24 de setembro de 2011

bird girls can fly

I am a bird girl now
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly





resolução válida para o resto deste ano/início do próximo: ver Antony and the Johnsons em concerto...

17 de setembro de 2011

This is just an introduction

tentas arranjar-te porque sabes como são estas coisas.
passas os dedos pelo cabelo, já desalinhado pelo dia.
as mãos tentam dar a forma original à roupa já cansada do corpo, avalias-te ao espelho. cuidadosamente. sabes que trouxeste o perfume. aquele que está quase no fim, que a crise da carteira te obriga a racionares.

mas isto vai valer a pena.

apesar de ser apenas uma introdução. mas tu sabes como são estas coisas: momentos sempre melhores do que os do dia-a-dia. a adrenalina começa a correr. devagar ao princípio.
pressentes um arrepio, um pequeno tremor no lábio e é aí que sabes: "this is not just an introduction"

8 de setembro de 2011

Voltar a escrever I

Recomeçar é sempre difícil. Após tantos anos sem escrever, sem saber como abordar a pagina em branco, volto a tirar o caderno da mala, procuro a esferográfica e recomeço. Ao início são apenas pequenos arranques. Pequenas frases soltas que tentam traduzir as imagens que se projectam quando fecho os olhos. Pequenos flashes de informação que me relembram como aqui vim parar hoje. Arrepios que me acompanham e me fazem crer poder estar a ficar doente. Poderá ser apenas a memória intrínseca do corpo. O reconhecimento da aproximação. A mão bem aberta, de encontro ao chão desta cidade que tanto me deu para, mais tarde, reclamar para si. Um novo sabor na boca que me é familiar. E uma vontade enorme de regressar...

1 de junho de 2011

pontuação





nunca pensei ter este tipo de pontuação na minha vida mas diz que ser "tia" tem destas obrigações... pois é... parece que a vírgula vai passar uma temporada lá em casa e quem me conhece sabe que só mesmo por amor é que eu poderia conviver com um gato. quanto mais durante duas semanas!! mas pronto.... só porque ela é fotogénica, minha "sobrinha" e gosta de livros é que aceitei abrir uma excepção.





vamos ver como é que a coisa corre...

fotos de jbeleza

21 de março de 2011

pensamentos soltos:
- recomeçar a correr
- começar pilates
- acordar cedo diariamente (mesmo aos fins-de-semana!)
- encontrar rapidamente uma (boa) biblioteca pública
- encontrar tempo para ler mais
- encontrar tempo para escrever mais
- não permitir sapatos em casa além da sala
pensar mais em ti...

25 de fevereiro de 2011

Ao ouvir hoje Nuno Júdice veio-me à memória imagens e personagens adolescentes. Ideias, fantasias e ambições mas sobretudo paixões e ilusões e a aprendizagem de que, se não tomarmos a vida pelos colarinhos, ela toma rumos inesperados. Ou, pelo menos, rumos não esperados. Mas penso ainda em como tinha ganas de agarrar pessoas pelos colarinhos (ainda deitei a mão a alguns) mas aí residia o meu erro: querer agarrar colarinhos e não o pulso. Porque toda a gente sabe que, em caso de queda, se deve agarrar pelos pulsos o que quer que nos foge.

18 de novembro de 2010

purgar

v. tr.
1. Limpar, purificar pela eliminação das impurezas ou matérias estranhas.
2. Livrar das impurezas interiores por meio de purgantes ou outros medicamentos.
3. Administrar uma purga.
4. Fig. Livrar.
5. Tornar puro, desembaraçar.
6. Expiar.
v. intr.
7. Evacuar; deitar de si; lançar pus, humores, etc.
v. pron.
8. Tomar um purgante.

16 de novembro de 2010

foi totalmente inesperado. como são todos os choques.

o autocarro estava cheio. a dez metros do sítio onde era suposto parar. na paragem onde parei tantas vezes - para subir a rua inclinada que me levava a tua casa. uma pequena travagem e o choque. a surpresa. corpos projectados para a frente. um grito colectivo para, logo a seguir, dar lugar à indignação.
foi totalmente inesperado.

como são aliás, todos os choques.

horas mais tarde, no regresso a casa, foi como se nada ali se tivesse passado. o pavimento não guardava nenhuma memória do acidente. e, como sempre, surpreendi-me com a efemeridade.

como a minha imagem nos teus olhos.
surpreendentes os choques.
sempre.

23 de outubro de 2010

sinto-me definhar. não fossem estas pequenas alegrias, a lembrança de alguém que chegou de longe, as amizades que se vão firmando e pensaria que estava sozinha. Apesar de estar.

Sei que estou. E que essa é uma opção.

Deixo de me entender. de querer entender-me. de querer falar.

muito álcool no sangue, é esse o problema destas quase seis horas da manhã...

20 de outubro de 2010

hoje

A única resposta

Jantáramos os dois pela primeira vez:
amizade ou amor, pouco interessava
desde que alí estivesses. O meu mundo
ia mudando à medida do teu,
a cada gesto vão da vã conversa
antes que fôssemos pIo Bairro Alto
e enfim o Lumiar, a tua casa.
Eu podia contar uma história, dizer
como aquele rosto atravessava o meu -mas não,
«nada de narrativas, nunca mais».
Apenas a certeza de estar morto
há tanto tempo, que já não me lembro
de cor nenhuma dos teus olhos. Não,
já não existe o dia nem a noite
e este silêncio deve ser talvez
a única resposta. É bem melhor
ficar à espera de que não regresses.



Fernando Pinto do Amaral
in A Escada de Jacob
Assírio & Alvim

22 de agosto de 2010

weight

tenho pedras nos bolsos do casaco. sinto-as, não vale a pena negá-lo. e nem toda a corrida do mundo me fará perder o peso que me faz arrastar os pés...

pequenos ataques cardíacos. arritmias de um coração que bate demasiado devagar.


Discover the playlist invincible with Lilly Wood And The Prick
>

23 de julho de 2010

a casa onde regresso mantém-se intacta. reconstruída que foi, tijolo a tijolo, enquanto o bulício do mundo nos mantinha distraídas.

o regresso era já esperado. os planos que deixámos feitos, em cima da mesa, não mudaram de lugar. traçavas então rectas limpas, sem necessidade de ensaio ou hesitação. havia então em nós a bruma da possibilidade e a nostalgia do futuro.

eu tinha mais palavras para dizer. pedaços de corpo que o tempo se encarregou de esquecer. as minhas palavras sempre pesaram na balança. formas exactas, massas pulsantes de sangue.

afastas a hera que cresceu no caminho de acesso à casa. o horizonte tingiu-se de verde, avançou ao alcance de duas mãos abertas.

se estenderes o braço, ainda conseguirás sentir o frio dos tijolos contra a pele

12 de julho de 2010

os nossos olhares cruzam-se por um breve instante e voltas atrás para ver melhor
quase te poderia nomear
mas o reconhecimento de ti é apenas uma memória que não tenho a certeza de estar intacta

os dias não me chegam para te reinventar.

28 de junho de 2010

memórias que irrompem por entre noites, corpos e o rio ali mesmo ao lado. histórias que merecem ser reescritas, revolvidas, revistas à escala apropriada. mesmo que as nossas mãos tenham crescido além do que seria de esperar.

ainda que eu não acredite em segundos encontros...


"Agosto

Rompem de novo aquelas mãos
a membrana da água
a mortalha do mar Cada braçada
agita o coração que pouco a pouco
atravessa o aquário do passado

Relâmpago do corpo - o que procuras
na voragem das ondas?"

in Pena Suspensa, Fernando Pinto do Amaral

14 de abril de 2010

equimoses

o correr da corda pelos dedos: queimaduras de terceiro grau.
mesmo quando a queda era já anunciada. ainda assim... como se prepara o corpo para cair? tenho a certeza de que os bailarinos têm truques para isso. mas nunca pratiquei dança na vida e nunca aprendi a preparar o corpo para as quedas.



23 de fevereiro de 2010

a caminho com a corrente (porque às vezes não é nada mau ir com a corrente...).

a cabeça pede descanso e conforto. o regresso às ruas por onde andava sozinha, inconsequentemente, inconscientemente, a meio da madrugada...

se pudéssemos estar apenas um pouco fora de tempo, em que tempo estaríamos?

24 de dezembro de 2009

X-time

porque este ano passou demasiado depressa e de repente já é Natal (novamente). porque este ano já estive entre dois países, a estudar, a trabalhar. porque este ano está quase a acabar e eu nem me apercebi (e principalmente porque ainda não fiz uma única compra)...

música para entrar no espírito (ou o espírito entrar)

23 de dezembro de 2009



estávamos a jantar e alguém se sentou ao piano que estava quieto a um canto. eu perguntei-te se conhecias a música e se não achavas que talvez pudesse ser debussy... mas a música não passou dos acordes iniciais... logo veio um segurança que pediu para se parar a música. "já viu!?"- perguntava ele indignado -"e se outras pessoas também tocassem? já é tarde. música ao piano só pelo pianista de serviço e só até às 19h!"

sacrilégio! o rapaz do quiosque que se tinha atrevido no teclado, imediatamente repreendido. imediatamente posto no seu lugar. porque o seu lugar, pelos vistos, não era ali ao piano, tocando debussy enquanto jantávamos...

já viste o que perdemos?

18 de dezembro de 2009

dias portugueses

agora que pareço estar oficialmente de volta, que até já tenho um emprego e tudo... os dias tornam-se mais povoados, com cada vez mais palavras. inglês e português embrulham-se na minha cabeça. nomes, nomes e nomes. e eu que sou terrível a decorar nomes... mas enfim... cá ando eu por uma lisboa chuvosa e cinzenta com ares portuenses (agora até parece que vamos ter aviões a fazer piões por cima do teijo!)...

e uma música que me fez sorrir esta manhã...


28 de outubro de 2009

oito anos depois

este blog é o 18.º blog português mais antigo ainda em actividade - ainda que a actividade por estas bandas, nos últimos tempos, não tenha sido muita.

podem ver a lista aqui

28 de agosto de 2009

e se um desconhecido te convidasse para jantar? isso era........ Londres

londres tem-se revelado uma surpresa a vários níveis. uma das experiências mais surreais e mais desarmantes é, sem sombra de dúvidas, ser abordada no meio da rua - e atenção, não estamos a falar em situações do género bairro alto onde anda toda a gente na rua à noite a beber um copo e aquilo se transforma num bar ao ar livre mais que um bairro. não, estamos a falar em ser abordada no meio da rua, em plena luz do dia e ser convidada, por exemplo para jantar. a primeira vez fiquei completamente desarmada.

saia tranquilamente do autocarro perto de casa e, enquanto caminhava em direcção a casa, o rapaz que caminhava ao meu lado começou a falar comigo como se fala com um amigo com quem se caminha. "olá, és muito bonita, ah e tal, és de onde? ah e tal, posso-te pagar o jantar amanhã à noite?" foi um bocado surreal até porque quando ele começou a falar comigo, fê-lo de uma forma tão despreocupada que eu nem percebi que aquilo era comigo.

mas isso já foi há uns meses e eu pensei "pronto, tenho de levar com os maluquinhos até em londres!". isso foi há meses...

a semana passada, estava eu num dia de stress e neura (a combinação bombástica dos últimos tempos) com poucas horas de sono, olheiras até aos joelhos, cara de poucos amigos (vocês já sabem como é), phones nos ouvidos, a ouvir Rodrigo Leão, na minha, a ver as pedras da calçada e à procura de um sítio para almoçar quando vejo um rapaz a dar uma corridinha ao meu lado e a fazer-me sinais. lá veio a minha veia latina ao de cima e pensei "olha que giro, alguém que precisa de direcções, vou ser simpática que também gosto quando são simpáticos comigo". pus o melhor sorriso que pude, tirei os phones e diz-me o moço "olá........ desculpa tar-te a seguir mas........... eu sou o stephen......." e encolheu os ombros. tadinho... sério... fiquei com pena dele porque logo de imediato, a minha cara fechou-se e só lhe disse: sorry, i don't have time for this... e, de repente, o moço que me pareceu tão simpático, tão perdido, como se aquilo fosse a primeira vez que ele fazia aquilo endireitou-se e diz-me muito sério, Yes you do. fiquei indignada. olhei para ele e disse, olha, n é por nada mas tou com pressa, tenho sítios onde estar, pessoas pra ver... i'm not interested (o que eu devia ter dito era, i'm NOT that into you mas essas coisas nunca nos vêem à cabeça quando estamos com a neura).

e lá me fui embora, de novo com o rodrigo, deixando para trás o stephen tristonho e indignado porque o raio da gaja que nunca parece europeia e é sempre confundida com libanesa ou sul-americana (há quem diga que tenho ar de peruana mas eu juro que só faço glugluglu debaixo de água!), o deixou assim... especado perante uma tão espectacular abordagem.

a minha questão é: isto é normal? há gente que realmente arranja relações com este tipo de abordagem? ou há quem acredite que arranja relações com este tipo de abordagem? se calhar é uma coisa cultural e eu não percebo...

mas confesso... passado 5 minutos até fiquei com pena do stephen e com vontade de voltar para trás e dizer-lhe... man, desculpa lá, tiveste um azar do caraças que eu tou com uma neurose poderosa... mas não desistas que o ego feminino fica bem-disposto para o resto do dia com uma abordagem dessas... pode ser que alguém entretanto te dê trela mas eu realmente.... i'm just not that into you...

10 de julho de 2009

working table

como sempre, só consigo ser produtiva madrugada dentro.... devo ter um bug, não sei...

portanto, depois de organizar as minhas leituras todas nesse grande programinha que é o Endnote e de as separar por temas (dentro do possível)... era injusto não vos mostrar a minha mesinha de trabalho (.j., nem parece a mesma mesa onde jantaste no outro dia pois não?).

e sim, a mesa está um caos... mas eu também só me organizo no caos... (ah e os lenços de papel é porque acho que tou com a gripe dos porcos!)

2 de julho de 2009

investigate

pois é... ainda estou em terras lusas, às voltas com a minha investigação. quase me sinto uma CSI mas, em vez de um laboratório, ando pelas bibliotecas das universidades portuguesas. o que é um desafio porque nem todas estão abertas a utilizadores externos (o que eu acho incrível mas enfim...).
e cá tou eu, tentando descobrir como é que os portugueses se relacionam com a Internet e com a política online, como é o capital social português e como enrolar isto tudo num lindo novelo ao qual vou chamar "dissertação". lindo, não é?

o que me consola é que, enquanto Londres é assolada por tempestades de Verão por cá o máximo que há é vento ao estilo el niño. e assim custa-me menos o facto de estar fechada em casa ou numa biblioteca o dia inteiro a cabecear de sono... o que me vale é o ipod a soltar música própria para o estudo e sentimentos mais quentes para que isto se vá escrevendo no meu mini computador (que se habituou agora a ser presença constante na minha mala).

isto de fazer uma dissertação tem muito que se lhe diga...

um novo fôlego e vamos lá... mais dois meses e já está...

25 de maio de 2009

e eu que ainda tinha dúvidas!

.j., r, afinal é tão simples quanto isto! vejam, tomem notas e executem (que é como quem diz, ide e soprai!) :p